Já é madrugada, as crianças dormiram, o bar da esquina fechou e o homem do roupão azul e charuto fechou a janela do seu apartamento. Fecho a cortina do meu quarto para que a luz da rua não me atrapalhe o sono.
Estou exausta! Durante o dia é a correria em meio ao barulho de sempre: campainha e telefone tocam juntos, num só acorde, crianças tagarelando, pratos, garfos, panela de pressão e lavadora de louças integram-se em uma apresentação; o concerto musical, ou melhor, concerto instrumental. Assim vai o dia, e o meu pensamento é um só: ficar a sós, em minha companhia, sem os ruídos. Eu comigo mesma.
Termino de fechar a cortina e deito-me.
Acompanho uma sombra no meu quarto. Contemplo-a interrogativa.
Eu conheço essa estatueta. A luz do meu quarto é só penumbra. Começo o diálogo com o mistério. À medida que vou falando de mim, da minha vida, sonhos, ela silenciosa movimenta-se timidamente.
A sombra sobe até o teto e lá permanece. Levanto-me, colocando os olhos naquela desconhecida e fico em pé no colchão.
Desesperada, luto por um ruído.
Calada, ela continua o trajeto.
Silêncio! A sombra encolhe e vai em direção à porta. Lá, para.
Faço perguntas descontínuas à desconhecida que invadiu a madrugada do meu quarto.
Que mundo desconhecido habita essa personagem?
Nesse instante, o que sei dela é que chegou ao meu quarto de forma sorrateira, movimentando-se como uma bailarina ágil, suave, harmônica. Equilibra, desequilibra, pula e brinca comigo, aliás, o tempo todo ela brinca. Ela é o mistério, o personagem desconhecido, o suspense; eu a personagem passiva que apenas olha.
Aquieto para ouvir sua respiração.
Nenhum som, tom, toque.
Percebo que conheço aquela personagem. O seu movimento plaina no ar. Naquele instante, levanto-me e vou até o espelho. Olho o meu rosto, minha pele, embora as marcas do tempo tenham poucas rugas, os meus olhos não são os mesmos. O brilho existe embora aquele da juventude não possa ser visto mais. Quero conferir melhor os traços que guardo hoje e acendo a luz. Volto ao espelho e olho a sombra.
Reconheço-me na sombra que reflete no espelho. A sombra então desaparece e fico ali, olhando-me, só, no espelho. Reconheço-me como mulher. A mulher que sou e da qual me aproprio nesse momento.
Jacqueline Antunes
Outono/2010
Nenhum comentário:
Postar um comentário