Texto publicado no Jornal O TEMPO DOS INCONFIDENTES em 27 de junho de 2012
Saio por Mariana, mais uma
vez, avistando os detalhes da minha vida diária. Olho o patrimônio humano e
subo a ladeira que vai para a Rua Nova, cantando baixinho o Hino de Mariana:“No seio dolente das idas idades. Em meio ao
silêncio(...)”
Paro de cantar e ouso imaginar como Alphonsus
de Guimaraens, compositor do Hino de Mariana, se sentiria ao ver a cidade hoje,
em um futuro que ele não previu. Ou será que previu?
Imagino-o sentado nas
escadas da Igreja Nossa Senhora do Carmo, pedindo a virgem que proteja a cidade.
Ele ouve as conversas dos políticos. Eles querem contemplar a coroa do poder no
ano eleitoral, em que serão escolhidos o prefeito, o vice-prefeito e os
vereadores.
Alphonsus, subindo a escadaria da Câmara,
senta e analisa as palavras de cada membro do executivo que ali se encontra. Ele
desce a rua, segue até a sede da banda, ouve a melodia afinada da Quinze de
Novembro e alivia sua alma ao escutar o Hino de Mariana.
Alphonsus vai em direção à Ponte Alphonsus de
Guimaraens ou Ponte de Tábuas, hoje, em total descaso. Encosta-se no parapeito
da ponte envelhecida e abandonada e fixa seus olhos no rio.
Ribeirão do Carmo, que participou da história
gloriosa desta cidade, corre agora repleto de lixo, abandonado. Barraquinhas
amontoadas em sua encosta descaracterizam o cenário da cidade histórica. O rio
desce triste e sujo, levando a ideologia primitiva dos grupos políticos que
acompanham e decidem a história de Mariana.
Ele que compôs o hino da cidade, interpretando
os cenários históricos de Mariana, vê em seu leito tantos
equívocos na vida política e civil do munícipio.
Existem, na sociedade civil de Mariana, grupos
fechados que não deixam outras pessoas participarem, impedindo a circulação de
outros ares, de novas idéias. Eles não deixam O OUTRO chegar.
Os sujeitos destes grupos só
conjugam o verbo na primeira pessoa do singular – eu quero, eu vou, eu posso –
e continuam como a mesma ladainha, neste vai e vem de individualidade que corta
o fio da meada, que poda a coletividade, o respeito mútuo e o bem comum.
Eu volto à paisagem que
criei com a presença do poeta. Olho para Alphonsus que contempla a cidade com
um olhar de lástima, sorrio desapontada e ele pergunta-me:
– Será que as eleições de outubro de 2012 mudarão
o cenário político desta cidade? Será que os novos rostos do poder continuarão
privilegiando os interesses de poucos?
O Alphonsus imaginário
termina a sua interrogação, sai a passos lentos sem olhar para trás, segue as
montanhas do Cruzeiro e desaparece como num clarão.
Olho para à frente e sigo o
meu caminho. Vou viver a rotina de todo trabalhador brasileiro que tem casa,
família, contas para pagar e que se indigna com os problemas do país, mas sabe
que o voto pode ser o grito de libertação do sujeito oprimido, que caminha
pelas ruas do Brasil.
Jacqueline Antunes
Pedagoga e professora da
Rede Pública Estadual de
Mariana.


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