terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Surpresa pouca foi bobagem

Nos últimos dias a mídia trouxe novamente o tema Biografia. Quem faz parte agora desse palco de críticas foram os artistas que participaram de uma época de censura do Brasil, vivendo na própria pele as perseguições e atrocidades que essa promovia, corpo a corpo, mente a mente, àqueles que tinham coragem de desafiá-la. Estão estampados nos jornais, revistas, telas e redes sociais de forma diferente de outros tempos. Cantavam, compunham músicas com trechos como "é proibido proibir".

Artistas do grupo Procure Saber, formado pelos artistas como Roberto Carlos, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Chico Buarque. O grupo é liderado pela empresária Paula Lavignia que defende a manutenção dos artigos 20 e 21 do Código Civil. Esses artigos proíbem a divulgação de informações pessoais a qualquer cidadão, "Em caso de atingirem a honra, a boa fama, ou a respeitabilidade ou se destinarem a fins comerciais”.  Essa discussão causou grande estranhamento em pessoas que tinham esses artistas como a voz da rebeldia, e que fizeram história no movimento forte de liberdade de imprensa no pais. Essa conversa de biografia no Brasil não andava em silêncio, mas gritou ao ver artistas como Chico, Milton...

Comecei o texto falando de contradições... Em meio a controvérsias... Em semanas de censuras, biografias, vida privada, vida pública. Entre julgamentos, polêmicas, escândalos e surpresas... Vou ficando por aqui, Caro Leitor.

A vida do outro é propriedade alheia... Biografia de pessoas públicas no meio literário é prato feito para o Leitor Brasileiro. Quem quer ter o direito velado na sua biografia, mesmo dando dado as caras, compondo letras de músicas e cantando canções que rebelaram contra ideologias retrógradas de uma época e agora pede um conhecimento prévio de quem escreve sua vida...
Guardo meu dedo apontado para quem quer que seja e com ele escrevo a minha própria vida. Vamos ver as cenas dos próximos capítulos da biografia no Brasil. Ainda há muito que caminhar essa história... dessa história.

Agora, que o ser humano vive de contradições isso lá vive... Controvérsias a parte, o mundo anda, pra frente, para trás, acelera e dá marcha ré.

E pelas bandas de cá, nessa velha e boa Mariana, teço a minha vida e aguardo boas novas da biografia no Brasil.

Como escreveu o poetinha, Vinícius de Moraes, que completaria cem anos de vida nesse último final de semana: Oxalá as biografias no mundo literário desse pais...

Bem-vindas as mudanças de opiniões. Espero, sinceramente, que não estejamos compreendendo mau a oratória desses artistas que são tão admirados pela voz do povo brasileiro... Ou que eles tragam outros ventos, outras vozes com tom de liberdade no universo cultural brasileiro...



Jaqueline Antunes
Professora e Pedagoga

É NATAL...



Natal batendo à porta e eu e meu filho preparamos a Árvore. Ele, menino curioso com suas perguntas embaraçosas, questiona: _Mãe, se no Natal se comemora é o nascimento de Jesus porque quem ganha presente somos nós?
É um alivio ouvir essa reflexão em dias que a vida está priorizando demais o consumo e agora no Natal isso fica mais evidente.
E o comércio está com suas portas abertas. O consumidor, desesperado com tanto brilho, entra frenético nas lojas para as compras natalinas, comprando uma variedade de produtos com seu cartão crédito, grande facilitador das compras dos brasileiros, e assim, também de reforço, evapora o décimo terceiro salário; quando o brasileiro fica endividado.
E as contradições seguem a data Natalina: em um país tropical como o Brasil, as árvores artificiais compondo mais para um cenário europeu; o brasileiro consumindo produtos importados em um verão natalino enfeitado de neve.
Natal é uma celebração cristã que comemora o Nascimento de Cristo. Pelo que conta a história, tudo muito diferente do que vemos no comércio e na mídia nesses tempos. Jesus nasceu numa manjedoura, um ambiente rústico e simples, em meio à natureza, rodeado de animais... Comemorar fora das convenções que o capitalismo nos impõe pode livrar muita gente de infartos, câncer, A.V.C., nessa vida estressada que levamos na lógica do Capital.
A natureza nos brinda, a cada dia, com uma nova possibilidade; para que tenhamos chance de escrevermos uma nova história. Mesmo matando vários leões por dia, vivendo entre luzes e trevas, vale à pena escolher viver com qualidade. Viver a vida, que é o contrário da morte. A morte (existencial) é uma estratégia cômoda: o cara deita e pronto, morreu. Vida é função trabalhosa... Mas será que nesse palco da vida precisamos mesmo daquilo que “construímos” a partir do dinheiro, da imagem, para sermos felizes? Será isso viver de ilusões?  Ilusões, paga-se caro por elas. Já sonhos, não. Viver com sonhos é viver impulsionado a realizar projetos... Eu por exemplo, sonho com um país que tenha como porto seguro a Educação. Ela muda e desperta transformações substanciais: educação, lazer, cultura, segurança, saúde, pão para todos... E que sejamos simples nas ações de cada dia, vivendo com humildade. Sonhos sempre, mas com pés no chão.


Jacqueline Antunes
Professora e Pedagoga


segunda-feira, 3 de junho de 2013

MONTANHAS DE MINAS GERAIS




Saindo pelas estradas de Minas, fascino-me com as montanhas. As histórias que circundam a Estrada Real são muitas. Minas são muitas, já dizia Guimarães Rosa. Ouso parafrasear o autor: As montanhas de Minas Gerais são muitas. Tamanhos e formas diversos. Grandes, pequenas, pontiagudas, arredondadas e repletas de cores fabulosas que tecem as linhas do horizonte em degradê.
Elas encontram-se formando um elo harmonioso, entrelaçam-se ao solo em uma teia de histórias. Nas montanhas, desce a água cristalina das cachoeiras, formando os rios que cortam os caminhos de Minas Gerais. Região abundante em ouro, grande riqueza brasileira. Molduras do viajante solitário, caminho que vai de encontro ao seu destino.
Quando miro os cumes elevados, tenho a sensação de levitar, de viajar pelo tempo. Remeto-me ao palco da Inconfidência Mineira, impactante movimento de liberdade e transporto-me para outros cantos do país, fazendo ligações entre acontecimentos passados e futuros. Repenso, passo a limpo e recrio nossa história sem erros e sem acertos.
Retorno ao berço do ciclo do ouro, com novas mensagens e possibilidades de vida, onde a intolerância inexiste, pois o respeito e o amor emergem naturalmente; onde a diversidade é respeitada e cada um dita o seu jeito de ser e viver. A hipocrisia e a politicagem suja e barata não têm vez. A democracia impera, há saúde e educação de qualidade.
 Meu sonho, caro leitor, é mudar toda ideologia amarga do sistema capitalista que nos engole. Peço desculpas por tentar levá-lo ao meu mundo imaginário. Fixo meu olhar nas montanhas, palco de arte, de cultura e berço da civilização. Montes elevados que vão, silenciosamente, de encontro ao céu, simbolizando o divino e o eterno. Rogo para que as montanhas ecoem as minhas preces. Assim seja!

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal " O Tempo dos Inconfidentes" - 29/05/3013


quinta-feira, 16 de maio de 2013

A PAIXÃO CEGA DO TAXISTA



Estou sentada no Parque Municipal, olhando meu filho divertir-se com os brinquedos. A orquestra toca e lembro-me da narração feita pelo taxista na noite anterior. Eu entrei no taxi, inebriada pela música boa que ouvi na voz do poeta, Caetano Veloso. O motorista contou-me várias histórias, durante o percurso, sobre o cotidiano da capital de Minas Gerais. Uma delas me fez lembrar das peças passionais de Nelson Rodrigues.
Eram dois sujeitos, um homem e uma mulher. Saíam todas as madrugadas para os bares da capital. Lá pelas tantas, o telefone do taxista tocava: - Venha me buscar, com ele não fico mais.Sujeito nojento, canalha, violento. A mulher destilava todo o seu veneno, classificando o companheiro como a pior pessoa do mundo. O motorista ouvia pacientemente, buscava-a e levava-a para sua residência.
No outro dia, antes do sol levantar-se, o motorista recebia outro telefonema. Era o homem, com voz de arrependimento, solicitando ao taxista que fosse até a mulher amada e entregasse rosas para ela, com um cartão que continha um pedido de perdão.O motorista subiu as escadas do prédio, entregou as rosas e sem, ao menos, se explicar, recebeu um soco nos olhos e um pontapé na bunda.
Essa situação de telefonemas durante a madrugada, buscas de um dos dois em situações precárias no bar e intermediações de pedidos de desculpas repetiu-se constantemente. Ao findar a história, o taxista olhou para trás e lançou-me uma pergunta: - a senhora sabe com quem sou casado hoje? Eu não entendi a pergunta estranha e muito pessoal para uma breve corrida, mas respondi: -Não!
Ele estacionou o carro na porta da residência que estava hospedada, virou novamente em minha direção e retomou a narrativa. A história dos sujeitos apaixonados continuou por muito tempo e eu era o coadjuvante. Eu ouvia-os pacientemente, levava flores, chocolates e cartões para a mulher, até que ela jurou amor por mim. Eu, já muito apaixonado, correspondi e nos casamos.
Eu não havia percebido as lágrimas de tristeza nos seus olhos e na sua face, comentei: - Que história de amor intrigante! Ele desabou em prantos: - Hoje, ela pediu-me a separação. Reencontrou o antigo amor e apesar de terem vivido entre tapas e beijos, resolveram largar seus parceiros atuais para reatarem. O grande babaca fui eu. Entrei na história de intrometido e me dei mal. Odeio todas as mulheres. E a senhora, por favor, saia, pois faz parte desse gênero. Disse-me ele com muito rancor. Paguei a corrida e saí de mansinho, porque a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.



 FORAM VÁRIOS OS TEXTOS VENCEDORES DO CONCURSO LITERÁRIO
“HISTÓRIAS QUE OUVI CONTAR”
EIS UM DELES!



                          Entrega do certificado e dos exemplares da coletânea das histórias premiadas.

O “causo” abaixo é de minha autoria e foi escrito com o intuito de participar do concurso literário "Histórias que ouvi contar", promovido pelo Programa de Educação Patrimonial Trem da Vale que abarca o plano de incentivo à leitura. Os textos vencedores do concurso foram publicados no livro "Histórias que ouvi contar", lançado no último sábado, dia 11 de Maio de 2013, nas festividades do aniversário do Trem da Vale.

Religiosidade e Cidade: O Milagre de Maria

Encravada nas montanhas mineiras a cidade de Mariana foi uma das maiores vilas produtoras de ouro para a Coroa Portuguesa.
Com suas ruas estreitas e empedradas, Mariana pode ser chamada de berço de “Minas Gerais” porque foi a primeira vila, primeira capital e primeira cidade do Estado.
Em Mariana podemos encontrar um precioso conjunto arquitetônico que guarda preciosidades do período colonial: igrejas, casarões e praças do município.
Toda essa riqueza se perpetua ainda hoje e se mostra viva também na tradição e na forte religiosidade que está presente na cidade, na comunidade e nas famílias dessa cidade.
A religiosidade sempre esteve presente em toda a história marianense e com grande riqueza histórica e também folclórica.
A história contada aqui é real, a senhora ainda reside na cidade, e, por questão de profunda timidez, não quis ter seu nome revelado.
Conta Ana, sobrinha de Maria, que, no ano de 1961, aconteceu um milagre com sua tia. Milagre que me ponho a narrar com grande prazer.
Numa das mais belas ruas mineiras, a famosa Rua Direita de Mariana, em um dos casarões que compõe o cenário precioso dessa história, morava uma família composta por 14 filhos.
Certa ocasião, a nona filha foi acometida por uma doença terrível e, no desespero de curá-la do mau, seus parentes e vizinhos fizeram-na deitar-se sobre a mesa de madeira, da forma que só os mortos ficavam deitados. Naquela época, as pessoas ficavam ao redor da mesa velando o defunto ou compondo o rito da “simpatia”. Uma crença que, hoje, parece beirar o nonsense.
A mãe da criança, pessoa muito religiosa, ao escutar o choro incessante da sua filha, disposta sozinha sobre a mesa, mandou chamar o farmacêutico, profissional que fazia às vezes do médico, já que na cidade, naquela ocasião, só existia o Doutor Elias, porém, ele estava viajando.
O farmacêutico, ao chegar, começou o exame da pequena e, ao retirar a roupa da criança, qual não foi a surpresa de todos e desespero de amigos e familiares ao verem que um enorme escorpião, provavelmente escondido nas gretas da madeira da mesa,  cravou o seu ferrão bem no peito da criança.
Antes mesmo de o escorpião ser retirado, os olhos de Maria já haviam se fechado e o que era uma tentativa de cura tornara-se uma sentença de morte. Sem dúvida, uma cena de grande tristeza, uma criança sobre a mesa de madeira, velas acesas, choro e dor na madrugada fria da Rua Direita.
A mãe, com a medalha de Nossa da Graças nas mãos, rezava aflita, pedia o milagre de a filha voltar a viver, crescer, encher de alegria os corredores do casarão, juntamente com seus outros irmãos.
            Conta-se que, de repente, a criança começou a chorar como em um milagre, as velas se apagaram, as portas bateram e os clamores foram atendidos pelos céus. Maria voltara dos mortos.
Algumas pessoas chegaram às sacadas e, ao olharem em direção à Igreja da Sé, avistaram um clarão vindo do céu, contam que desciam anjos, querubins e a Virgem das Graças, de mãos dadas com as três virgens proclamadas padroeiras da cidade: Nossa Senhora do Carmo, a Virgem Conceição e Nossa Senhora da Assunção.
Foi um espetáculo de grande beleza coroada ainda pela musicalidade do Hino de Mariana, escrito pelo morador e escritor solitário da Rua Direita, Dr. Alphonsus Guimaraens.
E Ana, com lágrimas nos olhos e um grande sorriso nos lábios, conta que só quem viu pode acreditar, pois foi o maior milagre que o povo de Mariana já presenciou.
Essa narrativa demonstra a vocação religiosa dos moradores da cidade barroca de Minas Gerais, Mariana.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.


domingo, 31 de março de 2013

MUNDO NOVO



Entro de mãos dadas com o meu filho na sala  escura do cinema, para assistir ao filme “Os Croods” em três dimensões.  Uma comédia pré-histórica  que relata a história da divertida família Croods. Eles vivem escondidos, a maior parte do tempo, numa caverna e são liderados pelo personagem Grug. Um pai temerosoque prega o medo para impedir que sua prole ande livre e sem a sua proteção. 
A caverna que eles moravam foi derrubada por um terremoto e tiveram que sair em busca de um novo lar. No caminho receberam a ajuda de um nômade do mundo moderno e esse bravo companheiro orientou a família a encontrar um lugar seguro.A luta dos Croodspara sobreviver  ao "fim do mundo" se tornou uma aventura incrível, eles enfrentaram   vários desafios, inventaram o fogo e descobriram um “mundo novo".
Durante o filme, entre risadas e as observações pertinentes  do meu filho, lembrei-me de uma das passagens mais clássicas da filosofia: a alegoria da caverna, que foi escrita pelo filósofo Platão e encontra-se na obra intitulada de “A República”. O mito da caverna nos mostra  a condição do homem, que vive aprisionado na sombra e que só quando se liberta das trevas da ignorância é que recebe as luzes do conhecimento.
No século XXI, é difícil nos livrarmos das amarras que  nos mantêm presos às ilusões: o consumismo desenfreado, que nos acorrenta em um mundo de sombras e a dificuldade de nos reconhecermos fora dele.Será que estaremos vivendo em uma caverna chamada capitalismo?Deixar para trás as cavernas que já habitamos e  vislumbrar o mundo através do senso crítico  é desconstruir nossa realidade.Desvendar um mundo desconhecido é fantástico e necessário para o processo de evolução. 
Caro Leitor, viver na escuridão, muitas vezes, é mais cômododo que viver a realidade. Precisamos deixar nossas zonas de conforto, sair das váriascavernas  que rondam a nossa mente e que reforçam o medo e a repressão. Devemos abandonar o que nos limita e permitir que a vida  contemporânea nos mostre as luzes do conhecimento para nos livrar da ignorância. Como escreveu Saramago: "Não tenhamos  pressa, mas não percamos tempo". Que as luzes apaguem as trevas.Oxalá!
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quinta-feira, 21 de março de 2013

QUADRO DA SINHÁ




Neste sábado de chuva fina, saí com a minha família para almoçar em um canto sossegado. Escolhemos o Restaurante Sinhá Olímpia em Passagem de Mariana, que, desde o ano de 1981, serve uma deliciosa comida mineira. Quando chegamos, deparei-me com um quadro de uma figura folclórica da região: Sinhá Olímpia. Ela circulava pelas ruas de Ouro Preto nos anos 70 e foi uma das primeiras hippies do Brasil. Contam variadas versões da sua história de vida.
Ela nasceu em Santa Rita, distrito de Mariana, sua família era rica. Apaixonou-se por um farmacêutico pobre e seus familiares não consentiram com o namoro. Dizem que Sinhá Olímpia veio morar em Ouro Preto e acabou perdendo sua lucidez. Ela perambulava pelas ruas, contando histórias irreais sobre a sua vida. Falava como se vivesse em épocas passadas, prendia as pessoas com suas narrativas sobre grandes momentos da história do Brasil esobre personagens ilustres.
Sinhá Olímpia apresentava características de alguém que fora bem educada, falava um português claro e cantava com uma bela voz pelas ladeiras de Ouro Preto. Fiquei um tempo olhando para aquele quadro e para a imagem daquela mulher, que tive a chance de conhecer na minha infância e que agora voltava a minha memória.Vestia um vestido e um casaco vermelhos, referenciando o clima frio da cidade, um chapéu grande com flores no alto e um cajado enfeitado com papéis e flores.
Mulher de finos tratos, "louca mansa", que só demonstrava agressividade, quando as crianças perturbavam-na com insultos. Os seus olhos pintados, naquele quadro, realçavam não a loucura, mas a dor de um amor não correspondido. Um olhar perdido no tempo, uma história de desilusões. Sinhá Olímpia saiu de casa, abriu mão de tudo para viver um o amor proibido e foi abandonada por seu amado.
Personagem de visibilidade em Ouro Preto, ela foi cantada em versos e prosas, foi tema de filmes e foi homenageada pela Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro, com o samba enredo "E Deu a Louca no Barroco". Recebeu a visita de Rita Lee, Milton Nascimento, Juscelino Kubitschek, Vinícius de Moraes, dentre outros.
Com seu cigarro na boca tragava as cinzas da má sorte, tentava ignorar a dor trazida pelo amor.Sua figura marcou presença nas ruas de pés-de-moleque de Ouro Preto. Ela abriu mão da vida real para viver da loucura, para viver, através das suas histórias, momentos que nunca presenciou fisicamente, mas que faziam parte do seu faz-de-conta. Sinhá Olímpia, mulher feminina com a alma rebelde, que entre cores, papéis e flores, enlouqueceu por amor, arrumou um jeitinho peculiar para fugir da sua dura realidade.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

domingo, 3 de março de 2013

EDUCAR PARA A DEMOCRACIA





Caro leitor, pensei em vários temas para refletirmos nesta semana. Poderia falar sobre as dificuldades que o Brasil, por ser um país recém-nascido para a democracia e ainda marcado pela colonização, apresenta para alcançar uma maior autonomia social, política e econômica na esfera mundial.Cogitei, também,escrever sobre a blogueira Yoani Sánchez, conhecida como uma dissidente cubana que escolheu o Brasil como o primeiro destino da viagem que fará por 80 países.
Imaginei o luto das famílias de Santa Maria e como estaria, hoje, cada mãe, cada amigo das pessoas que morreram em uma tragédia coletiva que, com o tempo, será esquecida pela mídia, mas a dor dos envolvidos só aumentará diante da ausência. Lembrei-me da renúncia de Bento XVI, o primeiro Papa a renunciar em um período de 600 anos e o que esse fato provocará na história da igreja e nas eleições italianas. Pensei em tantos temas relevantes e acabei escolhendo relatar uma história do meu cotidiano, algo simples e que, muitas vezes, passa despercebido aos olhos.
Neste fim de semana, levei meu filho para brincar no Jardim. As crianças brincavam de bola, bicicleta, esconde-esconde e outras brincadeiras que surgiram no decorrer da tarde. Ele participava das brincadeiras, tirava as sandálias, colocava os pés no chão, tomava sorvete e lambuzava-se,correndo daqui e correndo de lá. Retratava a bela vida de moleque.
Algumas vezes, ia até ele e dava algumas orientações necessárias para a lei da boa convivência com amigos e com o patrimônio público.De repente, chegou uma criança com um carro motorizado e ficou passeando com aquele brinquedo bonito e lustroso pelo Jardim. Como o carro era a bateria, a criança ficou horas dentro de um brinquedo sem fazer nenhuma atividade: não pedalava, não jogava, não se relacionava com outras crianças e não gastava energia.
A noite chegou, eu peguei a mão suja do meu filho, que estava rodeado de crianças, despedimo-nos de todos e fomos embora. Fui para casa pensando sobre os desafios que os pais enfrentam para criar seus filhos. Não há receita,cada sujeito tem sua singularidade. Creio que o maior desafio para os pais é criar os filhos sem seguir um modelo capitalista.
Comprar um brinquedo para a criança que não irá ajudá-la a desenvolver um papel social é empobrecedor. É na brincadeira que a criança constrói suas relações com outras crianças, estabelece regras de convivência.Quem sabe se, desde a mais tenra idade, as relações forem estabelecidas entre parcerias, entre encontros e desencontros; a sociedade viverá em harmonia e a democracia atingirá seu real significado.
Será que nós queremos viver a democracia? Será que estamos preparados para isso? Não será papel da educação familiar e escolar preparar uma civilização mais livre e democrática?

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ATÉ QUANDO REINARÁ A ESCRAVATURA?



Esta semana, fui fazer feira num sacolão da cidade. Em meio a diversas frutas, legumes e verduras, senti que a natureza convidava-me para um banquete de cores e sabores. Eu estava inebriada com toda aquela diversidade e fartura, dirigi-me ao caixa e uma jovem atendeu-me com um largo sorriso e tom manso de bom dia.
Eu colocava as compras no caixa, quando, inesperadamente, um tom árido soou atrás de mim: – Menina, cadê a sua colega? A profissional acabara de ausentar-se do local e ele já cobrava de forma impertinente a sua presença. Quando ele me viu observando-o, começou a circular, imponente, pelos caixas, subjugando todos os funcionários.
Ele ria para mim, enquanto humilhava os funcionários, ditando regras e vociferando ordens; esperando que eu, como cliente, aplaudisse aquela cena mais condizente com o Brasil escravocrata.Tive vontade de arrancar daquele capataz o seu chicote.
Controlei-me efiquei olhando-o, sem dizer nada, mas baixinho, sussurrei no ouvido daquela moça, perguntando-a: – Ele age sempre com esta arrogância? – Ela olhou para mim e mostrando-se satisfeita por partilharmos da mesma opinião em relação a aquele sujeito agressivo, respondeu-me: – Hoje ele está de bom humor, está rindo, olhe só.
Olhei-o e aquele sorriso enojou-me. Engoli seco, paguei, dei um abraço na moça do caixa, saí enxugando meus olhos e indagando: – Como pessoas que estão trabalhando eficientemente são tratadas desta forma no século XXI?
 Na correria do dia-a-dia, o ocorrido não saiu da minha cabeça e confesso que, quando comecei a tecer o texto, um nó fechou a minha garganta.Parei, saí da frente do computador para respirar e ver com quais palavras concluiria minha colcha.
Desde os primórdios, os homens escravizavam outros homens e, ainda hoje, a escravidão faz parte da nossa história. Um problema social que gera a desigualdade e fortalece a impunidade. Cenas do Brasil colônia, escravizado por Portugal, passaram pela minha mente. Infelizmente, percebo que resquícios das práticas escravocratas permanecem nas atitudes de muitos sujeitos.
O Brasil foi um dos últimos a abolir a escravatura e parece que a ideia de superioridade que gera a exploração impregnou a nossa cultura.O processo de democracia é complicado em um país, onde os poderes públicos ainda idolatram várias formas de autoritarismo e visam interesses individuais. Até quando teremos que conviver com tais atrocidades?

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MARCA NA PELE




Na manhã de domingo, fomos em direção ao Planetário de Belo Horizonte, que fica em frente da Praça da Liberdade. Só faltavam três minutos para a sessão começar,quando fui alertada de que os professores pagam metade da entrada. Uma pena, eu insisto em me esquecer dos direitos dos professores (são tão poucos).
Meu filho com pressa de entrar no mundo mágico do espaço e eu, ali, remexendo na carteira para achar um comprovante da profissão que exerço. Não encontrei absolutamente nada, nem uma pista, nem um cartão do Ipsemg, nem um contra cheque, então, proclamei-me professora: -Tenho uma forma mais original de apresentar-me e comprovar a minha profissão.Toque na minha pele e se você for sensível sentirá a minha marca. Justifiquei.
Ela me olhava-me, possivelmente imaginado que estava diante de uma louca. Entrei no museu e pensei: - Para ser professor é preciso ter garra, presença forte, audácia e coragem, tudo isso é a nossa marca registrada. Milton Nascimento destacou a grande mania do professor em sua canção:"Mas é preciso ter manha. É preciso ter graça. É preciso ter sonho sempre. Quem trás na pele essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida".
O mês de janeiro está chegando ao fim e vamos caminhando para o mês de fevereiro. É chegada a hora de colocarmos as mochilas nas costas e voltarmos para a escola. É Tempo de criança na escola, romaria daqueles que trazem na bagagem o conhecimento prévio e condensado do mundo que os cerca. Chegam ávidos, sentidos despertos, emoções à flor da pele para sentir e indagar o novo mundo que circunda no espaço escolar.
Remeto-me a outra canção de Milton Nascimento para celebrar o encontro entre alunos e professores: “Mas renova-se a esperança. Nova aurora a cada dia. E há que se cuidar do broto. Para que a vida nos dê flor e fruto”. Vamos arregaçar as mangas professores! Um novo dia amanhece na história da educação brasileira. Suspirem fundo, tenham foco, fé e determinação para a nova jornada.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 30/12/2013