sexta-feira, 28 de março de 2014

Desfilando com sedas e rasgando o verbo

Caro Leitor, no dia 8 de Março foi comemorado o dia Internacional da Mulher.
No primeiro parágrafo, nota-se que a linguagem privilegia o sexo masculino. Eu poderia ter começado o texto com Caras Leitoras (... e coloque caras nisso, são as mulheres que procriaram cada homem que faz parte desse planeta), mas o machismo nosso de cada dia reforça o poder da palavra a favor do gênero masculino.
E esse resiste, perpetuando pela história, com garras e dentes, dando as mãos a um coral de vozes (infelizmente, muitas femininas), clamando amém. Quando por exemplo, usamos o termo "O Homem" para indicar o ser humano, já é uma concepção machista de linguagem. O gênero imperador do mundo pós moderno continua sendo o homem.
A mulher carrega pela história afora estereótipos negativos e ainda são castigadas pelo poder da sedução: encontramos desde Eva, Maria Madalena, Pandora e hoje Vadias e Piriguetes.
Mulher é Deusa, bela, fera, reluzente... mata 10 leões por dia na vida, na lida, na família. Mulher rasga o verbo, valoriza a seda, veste a calça e o salto... desce do salto, revela, rebela, é doce, fel, sol, lua, mar, rio.Veste a roupa que quer e não é vadia por isso.
Não toque na mulher, meu Caro José ou João, Vicente, Clemente ou Tenente, porque com seu machismo, você vai encontrar com a Maria da Penha na prisão.
Rasgando verbo e desfilando em sedas, porque faço parte delas, graças a Deus, peço aos céus, que a violência e a humilhação contra as mulheres na História tenha um ponto final, e que essas sejam reconhecidas e respeitadas efetivamente nos lares, no trabalho, nas ruas, na vida.
Oxalá, minha mãe.













Jacqueline Antunes

LEVEZA POUCA É BOBAGEM

Fazer do limão, limonada é um desafio para viver uma vida mais leve em tempos em que o que se pede do homem contemporâneo é um mundo acelerado, um corre-corre frenético que dá a sensação de lutar, lutar e morrer na praia.
Embora o brasileiro tenha seu tempo próprio para começar o ano fora da data oficial (01 de janeiro), em 2014, macacos me abanem, esse cálculo alonga-se por até o oitavo mês do ano, já no segundo semestre. Afinal, estamos no “país tropical, abençoado por Deus” e além de samba e carnaval, a bola rola na vida do cidadão: a Copa que será sediada no país... E o país não está bonito. Entre problemas graves de economia, corrupção na política, Patatis e Patatás atuando nas plenárias nacionais, o brasileiro arrasta a bola entre IPVAs, IPTUs, dívidas do Natal e das férias; e ainda tem as baterias preparando os tambores, os sambistas acertando os passos da Escola de Samba... pena que a Educação brasileira tem o passo desacertado.
Em passos delirantes, barulhos e movimentos desastrosos, o exagero fecha os ouvidos dos homens, e na moda da aceleração constante, perdemos o nosso jeito de caminhar.
Comecei este texto falando de leveza, e como dizia o poeta Cazuza[1], “o tempo não para”, as piscinas estão cheias de ratos” e as “ideias não correspondem aos fatos". Então, caro leitor, convido-o a desacelerar com o poeta gaúcho Mário Quintana[2]: “E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguia, seguia, sempre em frente... E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas”.
É preciso cultivar os momentos em que os pensamentos voam para que a alma se vista de novas cores. O tempo é sagrado na existência humana.
Não me venha complicar a vida. Vida “leve não é vida fácil nem superficial. É vida simples” (Cortella[3], 2010). Vida simples é viver o Aqui e o Agora. Deixando o passado que nos traz memórias e, muitas vezes, sentimentos depressivos, e não correr para alcançar o futuro que nos faz ansiosos.
Viver o simples da vida é ter a sabedoria de mudar aquilo que pode, e o que não é da nossa conta, deixar o tempo dar respostas. E, com os pés fincados no chão, acreditar em si, nos sonhos, na vida, ao invés de procurar “felicidades”. Buscar a leveza, na medida do possível... mesmo em tempos de Copa, gols e samba, sem a fantasia da ilusão. Apenas ser quem se consegue ser. Apenas.



[1] CAZUZA. IN: CAZUZA. O Tempo não Para. Música do álbum homônimo, quarto álbum solo e último registro Ao Vivo do cantor. Foi gravado durante a turnê do disco Ideologia, em16 de outubro de 1988 no Canecão, Rio de Janeiro.
[2]QUINTANA, Mário. IN: Seiscentos e sessenta e seis.Poema publicado originalmente no livro Esconderijos do Tempo, Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 479.
[3]Sergio CORTELLA, Mário Sérgio. IN: FERREIRA, Leila.A arte de ser leve. Rio de Janeiro: Globo, 2010. 280 p.