quinta-feira, 29 de março de 2012

VOZES FEMININAS



“Liberdade é pouco. O que quero ainda não tem                  
nome. Não quero ter a terrível limitação de quem
vive apenas do que é possível fazer”.
                                                           Clarice Lispector

 O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem origem nas manifestações femininas por condições de trabalho mais justas e direito ao voto, no início do sec. XX, nos Estados Unidos e na Europa.
As mulheres conseguiram grandes conquistas, além de alcançarem um papel atuante na política e na sociedade, elas ganharam espaço no mercado de trabalho e passaram a participar ativamente da economia. Elas estão, cada vez mais, se conscientizando de seu potencial e de sua importância na sociedade. Embora ainda exista discriminação do trabalho feminino, as mulheres têm se tornado independentes e têm produzido grandes mudanças na sociedade.
O escritor Shakespeare pronunciou a seguinte frase:“Fragilidade, o teu nome é mulher”. O compositor Erasmo Carlos dialoga com o escritor inglês ao cantar: “Dizem que a mulher é um sexo frágil, mas que mentira absurda”. Constatamos que a visão acerca da mulherdo compositor da atualidade é bem diferente da visão do escritor de outros tempos.
Renomados escritores e compositores enaltecem a mulher em seus poemas e canções, importantes escritoras usam suas vozes para valorizar e exaltar a mulher moderna.
“Ainda temos muito que caminhar, mas globalmente poderia dizer que a mulher já trilhou mais da metade do caminho de lutas nessa estrada rumo à libertação. O que vejo hoje é um quadro muito positivo. A mulher é dona do mundo, ela é parabólica(...) Ao mesmo tempo que está ligada na camisa do marido, está vendo o bife para o filho, ligada em administrar o dinheiro, a casa.(...) Ela é em si,por direito, a rainha da vida.”Elisa Lucinda
Atualmente, muito já foi feito em prol dos direitos das mulheres, mas, ainda há muito para ser mudado.Encerro com a reflexão de Simone de Beauvoir, escritora francesaque lutou bravamente pelos direitos da mulher: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Jaqueline Antunes
Pedagoga e professora da
 Rede Pública Estadual de
Mariana.

FELICIDADE CLANDESTINA



Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
CLARICE LISPECTOR

OUTONO



Folhas varrem o terreiro
minha alma límpida
leve
solta.

A fotografia que vejo
o vento
leva
as folhas
leva junto
sentimentos mofados.

Renova
a estação
sabor de frutos colhidos
nada foi em vão.

A beleza da vida aparece
na fotografia
que criei
na vida que quis
e que
apodero-me agora.

Outono
vou navegar
nas folhas
secas
que lembram
seu olhar.

                      Jaqueline Antunes

BH aqui bate um coração

sábado, 17 de março de 2012

Arte é Educação

CURSO DE LITERATURA INFANTIL





Sugestões de video da professora Heloisa Davino - FAOP - Ouro Preto

http://www.youtube.com/watch?v=MxwJStWIWfY

NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda. 
Mas invento palavras 
que traduzem a ternura mais funda 
E mais cotidiana. 
inventei, por exemplo, o verbo teadorar. 
Intransitivo 
Teadoro, Teodora. 

Manuel Bandeira 

quinta-feira, 15 de março de 2012

MULHER

Sua face,
bela.
Seus peitos
amamentam
o filho.
O leite corre
na boca da criança.
A mulher
oferece ao amante
os seios,
no colo nu.
Ela inclina,
enche o homem de afeto.
Ele adormece.

Ainda é madrugada.
A mulher fatigada
adormece,
exausta.
Alimentou a todos.
Encontra no travesseiro,
Ela,
Mulher.
Adormece,
sonha,
despe-se.
Agora é só
Ela.

Na noite,
fantasias,
segredos.
Ela,
adormecida.
Mulher
de vida.
Mulher
na vida.

Gostaria de ressaltar algumas personalidades que se destacaram na história e que são exemplos da força feminina:

- Cleópatra foi a última rainha da Dinastia ptolomaica que dominou o Egito após a Grécia ter invadido seu país.
- Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, foi a primrira mulher a integrar um grupo de cangaceiros.
- Chiquinha Gonzaga foi compositora, pianista e a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.
- Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, conhecida como Simone de Beauvoir, foi escritora filósofa e feminista francesa.
- Joana D’arc foi uma importante personagem da história francesa, carbonizada em 1920.
- Maria da Penha Maia Fernandes é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima da violência doméstica.
- Rachel de Queiroz foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.
- Meryl Streep foi a ganhadora do Oscar 2012 por sua atuação no filme A Dama de Ferro, no qual ela interpreta Margaret Thatcher.

Uma homenagem a todas as mulheres pelo Dia Internacional da Mulher.

Jaqueline Antunes
Pedagoga e professora da
 Rede Pública Estadual de
Mariana.

domingo, 4 de março de 2012

E agora José? - Carlos Drummond de Andrade

AS VÁRIAS PERSONAS DO HOMEM CONTEMPORÂNEO
                            “E agora, José? 
                                                          A festa acabou, 
                                                          a luz apagou, 
                                                          o povo sumiu, 
                              a noite esfriou, 
                              e agora, José? 
                              e agora, você? (...)”

 José Carlos Drummond de Andrade 

 As máscaras estão presentes em diferentes culturas, são utilizadas em diversas ocasiões e têm inúmeras finalidades. Na Grécia, os atores utilizavam máscaras para interpretarem um personagem, tais enfeites eram denominados personas. Sua função era dar ao ator a aparência que o papel exigia. Em Veneza, a nobreza fazia uso das máscaras para se disfarçar e se misturar ao povo durante as festividades. O carnaval moderno, cheio de cores, desfiles e fantasias, foi inspirado nas festas da sociedade vitoriana. Em Mariana, muitas pessoas se enfeitam com máscaras alegres e coloridas para brincarem em meio à folia. Ao usar uma máscara, cria-se um ambiente fantasioso, o apetrecho esconde a verdadeira face e permite que as pessoas encarnem diferentes personagens. O grande problema é que muitas pessoas estão sempre mascaradas, e o mais perigoso é que elas não fazem uso de nenhum enfeite ou objeto, fazem isso com a cara limpa. Para muitos brasileiros, o ano começa depois da folia carnavalesca. A verdade é que o carnaval já acabou. Ainda é tempo de parar, de refletir e principalmente de tirar as máscaras para encarar a vida com responsabilidade, seriedade e com a cara lavada. Vivemos em um cenário de trocas de prefeitos, no dia 15 de fevereiro, a população da cidade presenciou a posse do quinto prefeito desde o pleito de 2008. Os políticos deveriam deixar suas rixas e rivalidades de lado e investirem mais no bem estar da população e da cidade. Os cidadãos devem cumprir o seu papel, devem refletir sobre o que está sendo feito na histórica Mariana, que apesar de ter uma memória cultural e arquitetônica viva, convive com uma situação lastimável há alguns anos. Gostaria que algumas questões, que estão em pauta no cenário político atual, fossem respondidas. Quando vão enterrar essa ideologia tradicionalista de esquerda e direita? Quando os políticos que desfilam pela prefeitura vão parar seus tratores? A população marianense traz nas suas bandeiras a desesperança em uma cidade que anda tão desvalorizada e desmoralizada por personas, que desfilam pela vida pública; clama por esperança e precisa de políticos que priorizem o enriquecimento urbano, social e econômico de Mariana. 
Jaqueline Antunes 
Pedagoga e professora da Rede Pública Estadual de Mariana.