sábado, 22 de dezembro de 2012

QUE O ANO NOVO VENHA COM ESPERANÇA!



Fim de mais um ano. O que foi feito fica na memória ou é descartado.O que aconteceu na vida pública? Quais as melhorias alcançadas no âmbito da educação, da saúde e da ciência? O que os homens que sentam nas cadeiras dos poderes políticos mundiais realizaram? Quais foram as mediadas e atitudes que eles tomaram para um mundo de paz e igualdade? O importante entrará para a história, pois fatos foram descobertos, alguns se estabeleceram e outros se diluíram.
O planeta está enfraquecido do acreditar. Recorro a uma história dos céus para que a sua mensagem ilumine as pessoas em tempo de Natal, momento em que todos nós estamos mais susceptíveis ao sentimento de compaixão. Deixemos o lado cinzento do não acreditar de lado e busquemos o lado otimista da vida, promovendo atitudes que despontem realizações e mudanças positivas na vida de cada um de nós.
Conta a lenda que no céu existiam várias estrelas, elas desejavam descer à Terra. Deus as chamou e indagou: Por que vocês ainda querem habitar um planeta que está tão desgastado de sentimentos nobres e com os valores tão invertidos?Ele já sabia a resposta, mas ouviu-as listar as necessidades do planeta. As estrelas do amor, do perdão, da caridade, da ética, da moral e da amizade desceram formando pontes de luz para iluminar os homens na Terra. Rodearam bares, escolas, prostíbulos, casas familiares, becos, ruas, avenidas...
 Um dia resolveram voltar. Acreditando que deixaram suas marcas nas pessoas que estavam abertas às mudanças. Deus olhou para cada uma delas e sentiu falta da esperança. Perguntou, fingindo ingenuidade: Qual estrela ficou na Terra? A estrela do amor logo respondeu: Ficou a esperança. Decidimos, em assembleia, que ela é a estrela que a Terra mais precisa.
Um ano finda e outro ano desponta, que a esperança brilhe na razão e na emoção de cada povo num acordo equilibrado com a paz.Que a igualdade e a verdadeira inclusão marquem todos os territórios e que o homem possa, efetivamente, promover a igualdade e viver em união, independentemente de raça, de credo, de sexo, de cor. Feliz Ano Novo a todos nós!

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O tempo dos Inconfidentes - 19/12/2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

QUEM SE LEMBRA DO ESPÍRITO NATALINO?




Sábado, entro no transporte coletivo que circula na cidade de Mariana e percebo um movimento fora do normal. Há um tempo, relatei uma série de problemas acerca do transporte coletivo em um texto publicado neste jornal. Será que, neste intervalo de tempo, aconteceram melhorias que beneficiaram os usuários deste serviço. Eu uso o transporte coletivo diariamente e, particularmente, não notei nenhuma mudança positiva. Voltemos ao ônibus lotado de pessoas com eu, cidadãos que têm um salário baixo e uma árdua rotina diária. Ao olhar pela janela, vejo as ruas cheias e os comércios abarrotados.
Em meio a um trânsito infernal, chego ao meu destino e lembro-me que o número incomum de pessoas nas lojas está relacionado com a chegada do Natal. O espírito natalino está mais ligado ao “bom velhinho”, de barbas brancas e roupas escarlates do que ao nascimento de Jesus. Será que o Pai Noel não é o Filho, Pai ou compadre do sistema capitalista que nos faz consumir desenfreadamente?
No momento das compras o sujeito ganha um grande poder ilusório, consumir para saciar desejos infundados dá às pessoas uma sensação de satisfação momentânea. É aí que mora o perigo. Caro leitor, passado o Natal vem as promessas do Ano Novo, as festas, as férias e mais gastos. Carnaval é uma loucura total, ninguém pensa em coisas sérias, só querem saber de folia; mas, inevitavelmente, chega Março.
O Congresso abre suas portas, meio apático, para o trabalho; pois, depois um recesso tão prolongado, é preciso que o povo seja paciente até que os políticos ajeitem suas musculaturas. Finalmente “inicia-se” o ano no Brasil. A realidade vai caindo de paraquedas na cabeça do sujeito endividado, que não consegue mais dormir sossegado. O bom velhinho não retorna e, agora, o seu fiel companheiro são suas dívidas, que estão fervilhando os seus pensamentos. Ele olha para o céu e pede a Jesus que brilhe na sua vida, pois se esqueceu de voltar seus olhos para as luzes no Natal e celebrar o nascimento de Cristo.
O tempo passa, o ano transcorre, chega o final do ano e você acha que as pessoas se lembrarão do sufoco e das dívidas do ano anterior? Posso apostar que muitas esquecerão e repetirão o mesmo processo, que se torna um ciclo vicioso em suas vidas. Parece-me que faz parte da cultura do brasileiro esquecer-se dos dramas vividos, não aprendendo a lição e seguindo sempre o mesmo caminho, iludidos pela falsa satisfação e por acharem que mais vale uma dívida na mão do que o objeto cobiçado voando.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto  publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 12/12/2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A VIDA É FEITA DE ATITUDES


Sou uma usuária do facebook e nessa rede social posto mensagens diariamente para amigos que partilham comigo esse instrumento de comunicação. Um espaço onde as pessoas publicam, curtem e compartilham ideias; entretêm-se, ouvem músicas, brincam e discutem temas diversos.
Eu criei um conceito chamado Blá,Blá,Blá,Blú,Blú,Blú, que se refere a tudo que o sujeito fala e sugere as outras pessoas e na realidade não pratica. Existe uma divergência entre a imagem que é criada no mundo virtual e a realidade; entre o fazer e o dizer existe uma diferença gigantesca. As falas e os atos das pessoas devem estar na mesma direção, pois se forem contraditórios, você estará criando uma mentira, estará mascarando a realidade.
O homem, muitas vezes, usa máscaras como defesa, é uma estratégia que talvez facilite o nosso dia a dia.Quem nunca usou máscaras? Não estou falando das máscaras da Grécia, que os atores utilizavam para interpretar um personagem, tais enfeites eram denominados personas. Em Veneza, a nobreza fazia uso das máscaras para se disfarçar e misturarem-se ao povo durante as festividades.
Não acredito em verdades absolutas e nem em pessoas por demais verdadeiras, pois o que é verdade hoje, pode não ser verdade amanhã ou o que é verdade para você, pode não ser para mim. Cada sujeito tem sua forma singular de ver o mundo.
Chegamos ao último mês do ano, ainda é tempo de pararmos para fazer um balanço, nos voltarmos para dentro de nós mesmos e avaliarmos nossas vidas pessoal, profissional e revermos se realmente cumprimos o nosso papel de cidadãos.O que você fez em 2012? Realizou muitos sonhos, ou ficou esperando que as coisas caíssem do céu?Pensou na coletividade ou enterrou o umbigo na sua individualidade? Procurou fazer as coisas da maneira que prega, seus atos foram condizentes com o que acredita ou apenas ficou no BláBláBláBláBlúBlú?
A vida é feita de fazer, prover, curtir, brincar, sonhar e é nesse movimento que as pessoas criam o cenário da sua história. Não vivemos sozinhos, estamos interligados por redes de convivências, sejam elas no cotidiano da vida real, sejam elas nas redes sociais. Devemos buscar uma relação de respeito em cada atitude, precisamos deixar o Blá,Blá,Blá,Blú,Blú, Blú e vivermos de modo mais coerente e mais equilibrado.

Jacqueline Antunes,
Pedagoga e professora.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

CIDADÃO, SUBA AS ESCADAS DO PODER


Na semana que passou, fiz uma visita à Câmara Municipal de Mariana e entre votações de projetos e alguns disparos de palavras soltas e ácidas, a voz dos vereadores ecoa na Câmara. O Poder Legislativo Municipal é exercido pela Câmara de vereadores, que em conjunto com o Poder Executivo, forma o governo Municipal, em respeito ao princípio de independência e harmonia dos poderes segundo artigo 2º da Constituição Federal.
É dever dos vereadores fazer uma ponte entre o prefeito e a sociedade civil. Os vereadores elaboram as leis que são competências do município, votam as leis que são propostas pelo Executivo, fiscalizam a atuação do prefeito; devem zelar pelo bom desempenho do Executivo e verificar as prestações dos gastos públicos. Chegou a hora e a vez da sociedade civil empenhar esforços para se fazer presente na Câmara, acompanhando e opinando sobre as propostas, os projetos e as ações que acontecem no município. O cidadão também possui voz e não deve calá-la. Esse movimento precisa ser feito com ética e responsabilidade. Deve-se respeitar às diversas opiniões e priorizar os interesses da coletividade. Não há espaço para o individualismo, para idéias que visem aos interesses dos grupos fechados. Jogos de palavras, acusações, demagogias e discursos contraditórios não resolvem questões e não promovem decisões para o bem comum.
A Democracia surgiu na Grécia Antiga e só, no século XX, passou a ser tida como predominante no mundo. Democracia é um sistema em que as pessoas de um país podem e devem participar da vida política, em que elas possuem liberdade de expressão e manifestam suas opiniões. É quando a vontade da maioria é lei. Será que somos um país que vivencia a democracia? Como será que a democracia acontece no país e no nosso município? Será que pouco mudou e que ainda vivemos em uma sociedade onde o poder é centralizado?
Para haver Democracia, o ESTADO DE DIREITO precisa funcionar e para que isso aconteça, nenhum cidadão comum ou pessoa do poder público deve estar acima da lei. Um país democrático cumpre suas leis. Será que as leis são cumpridas no Brasil e nas montanhas da cidade de Mariana? Conclamemos que se cumpram as leis, pelo exercício da democracia e da cidadania. Não deixo morrer em mim a esperança de que a ética, a verdade e a justiça prevaleçam no poder público e de que a sociedade civil e os governantes alcancem os mesmos objetivos ao transportarem o olhar além dos próprios interesses e vislumbrarem a causa do bem estar coletivo. Assim seja!
Jacqueline Antunes - Professora e Pedagoga

Texto publicado no Jornal O tempo dos Inconfidentes – 28/11/2012

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VOCÊ TEM MEDO DE QUE?


Em meio a uma brincadeira na praça, ouço alguém dizer a uma criança: – Você não pode correr sozinha por aí, porque o homem do saco vai lhe pegar.
O medo nos acompanha desde a mais tenra idade, a literatura infantil nos mostra, através dos seus enredos, que podemos superá-lo com coragem e determinação. As histórias colaboram para compreendermos que a vida é uma luta contínua do bem e do mal e que, como na maioria desses clássicos infantis, é possível superar todos os inimigos e percalços que enfrentamos na caminhada diária.
Contar e ouvir histórias infantis são um ato prazeroso, pois alimenta a vida interior das pessoas, fazendo com que a fantasia promova a esperança, minimizando questões que afligem o homem no mais íntimo do seu ser. Sentir medo tem seu lado saudável, a espécie humana não teria sobrevivido aos predadores e aos perigos sem ele. O medo é um mecanismo de alerta que nos fortalece, estabelecendo limites e desenvolvendo mecanismos de defesa.
Será que o medo é imposto? Quando a mãe diz ao filho que se ele “pecar” o homem do saco vem para levá-lo, pode ser considerado um medo “saudável”? Será que o homem do saco não representaria Deus e o saco representaria o inferno? Na história das civilizações existem marcas desse medo, reporto-me aos tempos da Idade Média, quando os homens da igreja exaltavam os princípios cristãos e a necessidade de estarem preparadas para o Juízo Final. O importante para o homem medieval era morrer sem pecado, porque só assim ele iria para o paraíso sem medo, com a alma pura. Os temores pelos fenômenos desconhecidos e incontroláveis eram amenizados pela fé.
Como o homem se apresenta no mundo hoje em relação aos seus medos? Será que o medo não está tomando proporções inadequadas? Somos dotados de humanidade, não somos seres perfeitos, pois cometemos erros e acertos, temos dúvidas e, muitas vezes, somos impedidos de prosseguir pelos nossos temores. Que o homem do saco, que pega a criança para fazer mingau, não ganhe força em proporções descabidas. Que tenhamos coragem e perseverança para enfrentarmos as dificuldades e lutarmos pelos nossos sonhos, para vivermos os dois lados da moeda, a dualidade da vida: o bem e o mal. Eu agradeço aos céus o humano que habita em mim, pois a luz só brilha diante da escuridão.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes -  20/22/2012 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

VIDA E MORTE


Sábado pela manhã, feriado de Finados, uma chuvinha fina cai na vidraça da minha casa, nessa calmaria, coloco-me a pensar em temas como Vida e Morte. Sabemos que o processo natural da vida é este: nascer, viver e morrer. Pronto, simples e real. Indago como todo homem que saiu da caverna (Remeto-me aqui ao mito da caverna de Platão, que é a exemplificação de como, através da luz da verdade, podemos nos libertar e sair da escuridão.) vive (Será mesmo que saímos da caverna?) questionando e criticando.
Morte, palavra densa. O que é morrer? Morrer é o ponto final, onde tudo acaba? Ou é quando deixo a roupagem carnal e lanço-me à viagem da renovação do espírito no mundo espiritual? Será a morte o misterioso caminho que me leva a desnudar-me ao encontro de mim mesma? Ou será sair das amarras da ignorância e sofrer o absoluto absurdo do conhecimento?
Reporto-me à parábola da Águia que viveu até os 70 anos, mas aos 40, quando se sentiu cansada, com as penas velhas, as unhas longas e fracas para agarrar as suas presas, ela foi para um ninho perto de uma montanha e lá arrancou seu o bico, esperou que crescesse e com ele arrancou as suas unhas, aguardou mais um pouco até que elas crescessem e com suas novas garras retirou suas asas e quando elas renovaram-se saiu para viver mais 30 anos. Na verdade ela viveu um tormentoso e necessário processo de renovação que durou 150 dias. Retirou o que era velho e ultrapassado, renovou-se e saiu pelo mundo forte, leve, graciosa e tolerante; pronta para entender que a vida é feita de alegrias, mas, também, de percalços.
Vida é o contrário da morte? A vida é oportunidade, é como uma folha de papel em branco, onde a cada dia traçamos nossa história. Viver é estar presente, pulsar, respirar; é pele latente nos caminhos da existência; é ser feliz, trabalhar em busca do alimento de cada dia, tropeçar, cair e levantar.
Existem, por aí, sujeitos que não conseguem ver a vida como uma "metamorfose ambulante" e que morrem sem desfrutar dos seus prazeres. A vida não é para ser perfeita e, sim, para ser vivida. Viver a mesmice, pensar que a vida é uma mala pronta que não pode ser desarrumada, não é vida e, sim, morte.
Levante, dance, trabalhe, brinque, ouse, leia, silencie, cale, durma, coma, beba e, quando a morte “bater na sua porta”, que sua vida tenha sido repleta de boas lembranças e que você tenha marcado a história. Bom Feriado de Finados a todos! Vou molhar-me na chuvinha fresca e brincar como criança, pois não sou de ferro para curtir o tédio melancólico de olhar a janela e ver a vida passar sem fazer algo diferente do que faço todo dia.
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 07/11/2012

UM PAPO COM O PROFESSOR


Na semana que passou, comemoramos o dia do professor. Falar de professor no Brasil, muitas vezes, angustia-me, pois eu sei que os governantes e a sociedade em geral não valorizam os profissionais da educação e, principalmente, da educação básica.
Fazendo uma análise da greve que aconteceu ano passado, revivo em minha memória alguns momentos desse doloroso movimento, que durou 112 dias. Na verdade, durou muito mais, pois, depois da greve, foram tirados os direitos estabelecidos e conquistados por nós, profissionais da rede pública estadual de ensino, em uma longa história de conquistas de direitos.
Nós, professores do ensino fundamental, atuamos na base da formação, mediamos o conhecimento em sujeitos que estão constituindo o seu carácter. É na infância que se constrói o despertar para educação de um cidadão que caminhará pelas ruas pensando, criticando, interagindo e contribuindo com a sociedade.
O ensino básico é menosprezado. É preciso valorizar a educação em sua totalidade, desde o ponto em que ela se inicia até chegar às universidades. É função do poder público e do educador desenvolver um ensino de qualidade. Deixemos de lado os paradigmas equivocados. Nós, professores da educação básica, não somos simples cuidadores e muito menos impositores de ideias e detentores do poder.Somos mediadores de conhecimento, devemos estimular o aluno a pensar, a questionar, a elaborar hipóteses e a acreditar em um mundo melhor.
Na última greve, o que me tocou foi, mais uma vez, grupos de “gatos pingados” lutando pelos direitos da educação nos municípios, entregando suas vidas na luta pela educação. Ao ir às assembleias em Belo Horizonte, pude observar que eram poucos os profissionais de educação dos ensinos iniciais que se dedicaram à causa e debruçaram-se sobre seus ideais. Que esperança eu posso passar ao meu aluno se eu não acredito na profissão que escolhi?
Junto-me àqueles que acreditam na educação, que vão à luta, que constantemente aperfeiçoam-se, capacitam-se, apropriam-se de cultura através de bons filmes, bons livros, boa música e estão antenados aos conhecimentos que perpassam a sociedade,só assim, teremos condições de sermos profissionais com visão de mundo.
Sei que esse texto está parecendo um puxão na orelha do profissional da educação no mês em que é comemorado o seu dia. Só estou tentando quebrar paradigmas negativos que não impulsionam o professor à sua grande causa: ser educador.
Sejamos compromissados com nossa vida profissional, busquemos nossos direitos e façamos valer o nosso dever de educadores. Quem sabe assim, juntos em uma classe unida e fortificada, cumpriremos o nosso papel perante a sociedade na formação de cidadãos conscientes e atuantes. É nos valorizando que seremos valorizados.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 22/10/2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

UM CLICK COM ARTE


                                                                                                 O olhar do fotógrafo
mira a alma.
Ele capta o instante
transformando-o em eternidade!

Revelo a você, caro leitor, um grande sonho: ser fotógrafa profissional, que mira e resgata a essência das coisas em um espetacular golpe de vista. O fotógrafo capta a cena a olho nu, despido de preconceitos, alcança o mistério da alma e eterniza instantes. Bacana vê-los sair por aí roubando cenas cotidianas e transformando-as em arte.
    Fotografia é leitura exemplar, olho no olho, boca na boca, pele na pele... A fotografia é como o sol que entra pelas janelas revelando a nossa essência. Ela desvela a beleza da noiva, a boca vermelha da prostituta, o vazio do bêbado, a miséria do amante abandonado, a grandeza da mulher descalça no chão seco do norte, o embrutecimento covarde do político que bate as mãos nas costas do eleitor ingênuo e rouba-lhe o voto, a ironia no azedume do homem que matou a mulher para ser livre na prisão.
    O flash invade a cena de amor sem pedir licença e com classe impõe sua presença. Ser fotógrafo é conhecer a sutileza e no silêncio desvendar segredos. A fotografia grita a injustiça, revela o mistério, mostra um rebuliço visual, onde nenhuma palavra é necessária. Ela acorda os sonhos adormecidos em nossa memória, através do olhar daquele que eterniza a vida ao ignorar o tempo presente. Um bom exemplo é o da viúva que doa, a cada manhã, um beijo ao retrato do marido que um dia foi presença.
Ana Elisa Costa Novaes, residente em Passagem de Mariana, pratica a arte refinada de fotografar. Ela mira o alvo com avidez e penetra o íntimo do objeto que revela. Resgata e transmite de modo peculiar culturas, ambientes, olhares, casarios, procissões; uma infinidade de cores e de formas. Encanto-me com o trabalho singular da fotógrafa que une os elementos em um acorde em plena sintonia com a beleza, o tempo, a memória e a história.  Ana cita Cartier Bresson – “fotografar, colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração” – para falar sobre seu trabalho: a arte de fotografar.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto  publicado no Jornal O tempo dos Inconfidentes - 17/10/2012

FLORESÇA BRASIL


Por onde eu passo, vejo os ipês, que apresentam cores exuberantes e enfeitam o ambiente. A primavera anuncia a sua chegada, renova os ares e os cenários da natureza, mas, muitas vezes, o sujeito passa com pressa, olha e não vê a chegada da estação primaveril. Por falar em pressa, no dia 7 de outubro, acontecem as eleições para prefeitos e vereadores de todo o Brasil.
Amanheci e descortinei a janela da minha sala, o céu azul dava um tom de esperança ao solo brasileiro. Não tenho nas veias o sangue da cigana latina, que prevê o futuro, não sei quem vai ganhar as eleições no nosso município e nem no Brasil. A minha única certeza é que, do Oiapoque ao Chuí, do norte ao sul e em cada ponto do país, teremos a oportunidade de votar, que é um direito constitucional e um dever cívico de todo cidadão.
Caro leitor, é tempo de renovação, novos prefeitos e vereadores subirãona rampa da vida pública;eles serão peças fundamentais que deverão ter grande responsabilidade na construção e na melhoria da vidado nosso município e do nosso país. Estamos cansados de tempos difíceis no histórico político brasileiro; o sentimento de desamparo e de desesperança rondam muitos de nós.
Vamos aproveitar os ares renovados pela estação primaveril. Acredito que o pessimismo não nos levou a lugar nenhum e só nos fez retroceder.Devemos tirar nossa roupagem impregnada pelo mofo e pela poeira dos velhos tempos, para que, com uma nova energia, finquemos o pé no acreditar. Ousadia é isto: ter fé no novo. Precisamos mudar a cor e o tom das nossas vidas para contribuir com uma sociedade mais otimista e ativa.
 Não somos bobos da corte, não devemos aceitar e acreditar em tudo o que fazem e falam os governantes, pelo contrário, devemos questionar, criticar e cobrar melhorias para o nosso município, só assim, contribuiremos para uma sociedade mais justa e democrática. Deixe a primavera modificar o espaço público, deixe o sol entrar, desvencilhando as trevas e possibilitando um ambiente de transformações e de evoluções para o cidadão brasileiro.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

FACE DE JESUS


No dia 18 de setembro, num congresso em Roma, foi apresentada uma inscrição antiga feita em papiro. O documento sinaliza que Jesus teria sido casado. Ora, a vida de Jesus foi perpassada por mitos e, às vezes, montar o quebra cabeça de sua existência é muito complicado.Se Jesus foi casado ou não, não quero entrar nesse pormenor. Seria um desatino escrever sobre uma temática tão polêmica. Acredito que esse é um assunto que deve ser abordado por historiadores.
O que quero ressaltar, caro leitor, são os exemplos e os ensinamentos de Jesus. Ao refletir sobre os passos desse homem de espírito superior, lembrei-me de uma palavra tão escassa atualmente – ALTERIDADE, originária da palavra latina alter, que significa o outro.
Jesus veio ao mundo há 2.000 anos, levantando a bandeira da ética, da alteridade e da paz. Seus ensinamentos foram muitos, porém, atualmente, são pouco aplicados. Hoje, vivemos em um mundo onde a cultura do capitalismo foi fixada em nossas cabeças. Estamos na roda viva das intolerâncias, das guerras, das discriminações, das disparidades, que gera graves problemas sociais.
O mundo contemporâneo ainda mostra marcas do domínio de homens sobre homens, da guerra de todos contra todos; somos seres suspeitos em muitos aspectos. A sociedade passou por inúmeras transformações e evoluções, mas a intolerância e o preconceito não se extinguiram. Como mudar este cenário em que o outro está diante de mim e não quero vê-lo, nem aceitá-lo?
Recorro à ética de alteridade do filosofo judaico, Emmanuel Lévinas – "É na face do OUTRO que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do OUTRO o sujeito se descobre responsável(...)" – para fazer um apelo pela justiça, pelo respeito e pela responsabilidade. Devemos continuar a trilhar nossos caminhos, promovendo o respeito perante as diferenças, procurando encontrar no outro a face de Jesus. Quem sabe assim, seremos acolhidos pelo mundo independente da nossa raça, credo, classe social e sexo.

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.
Texto publicado no jornal O Tempo dos inconfidentes  - 02/10/2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO AINDA QUE TARDIA


Eu disse a uma amiga:
- O jardim de Mariana está florido, o coreto restaurado, a Praça Gomes Freire está revigorada, mas as bicicletas guiadas por adolescentes, a toda velocidade, tornam o ambiente desagradável.
No momento em que eu falava, um deles passava por nós. Ele mais do que depressa parou a bicicleta e me perguntou:
- Você é a dona do Jardim?
Respondi:
- Não, sou uma moradora da cidade, gosto do Jardim e quero passear aqui sem ser atropelada pelas bicicletas.
- Quer chamar a polícia? Pode chamar! Sou filho de um policial militar – disse-me ele.
Pensei em dar-lhe a seguinte resposta:
-Seu pai é policial, então chame-o para eu pedir a ele que lhe dê educação.
Preferi não me manifestar. Ele continuou encarando-me como quem deseja o temor das pessoas. Naquele momento, senti que me queria como sua refém. Ele gritava desaforos e insultos ao fitar-me com um olhar ameaçador.
Escrevendo esse texto, reflito sobre a falta de educação. As pessoas não compreendem que liberdade é o direito de procedermos como acharmos melhor, contanto que esse direito não vá contra o direito dos outros. Hoje é sete de setembro e comemora-se a Independência do Brasil. Será que atitudes, como a desse adolescente, acontecem por vivermos uma falsa independência? Será que os jovens estão desnorteados por estarem no meio da loucura causada por mentiras, corrupções, deturpação dos valores e histórias mal resolvidas?
Não vou entrar no mérito histórico, não sou historiadora. Estou fazendo uma crônica para expor o meu ponto de vista diante de situações cotidianas. Nesses dias, um mal-estar pairava sobre as ladeiras da cidade. Será que a população, depois de séculos após a Inconfidência Mineira, que aconteceu em Ouro Preto, ainda clama pela “Libertas Que Sera Tamen” (liberdade ainda que tardia)?
Liberdade, palavra tão cobiçada nessa região na época dos inconfidentes. A Inconfidência Mineira terminou em mortes, traições e amores. A história apresenta várias versões, mas o que interessa é que esse movimento fez parte do processo de Independência do Brasil.
Somos um país tão empobrecido no que tange às questões como a independência e a política. O governo não investe em educação e é ela que promove cidadãos críticos, pensantes, conscientes de seus direitos e deveres e que saibam conduzir a vida através de um movimento da equidade. A educação deve ser prioridade de quem está no poder público e, também, de todo cidadão brasileiro.Um pouco de educação não faz mal a ninguém!
Resta-nos a esperança de que nem todos os pais deixem seus filhos saírem pelas ruas fazendo uso da violência que, infelizmente, passou a fazer parte do nosso cotidiano. Lutemos pela educação e pela liberdade plena para gregos e troianos. Assim seja!

Jacqueline Antunes,
Pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 13/09/2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

RELIGIOSIDADE E CIDADE: O MILAGRE DE MARIA


Em Mariana, podemos encontrar um conjunto arquitetônico que guarda preciosidades do período colonial: igrejas, casarões e praças.Toda essa riqueza se perpetua ainda hoje e se mostra viva na tradição e na forte religiosidade que sempre esteve presente em toda a história marianense, com grande riqueza histórica e também folclórica.
A história contada aqui é real, a senhora ainda reside na cidade, e, por questão de profunda timidez, não quis ter seu nome revelado. Conta Ana, sobrinha de Maria, que, no ano de 1961, aconteceu um milagre com sua tia. Milagre que me ponho a narrar com grande prazer.
Numa das mais belas ruas mineiras, a famosa Rua Direita de Mariana, em um dos casarões que compõe o cenário precioso desta história, morava uma família composta por 14 filhos.
Certa ocasião, a nona filha foi acometida por uma doença terrível e, no desespero de curá-la do mau, seus parentese vizinhos fizeram-na deitar-se sobre a mesa de madeira, da forma que só os mortos ficavam deitados. Naquela época, as pessoas colocavam-se ao redor da mesa velando o defunto ou compondo o rito da “simpatia”. Uma crença que, hoje, parece beirar o nonsense.
A mãe da criança, pessoa muito religiosa, ao escutar o choro incessante da sua filha, disposta sozinha sobre a mesa, mandou chamar o farmacêutico, profissional que se fazia, às vezes, de médico,  já que na cidade, naquela ocasião, só existia o Doutor Elias, porém, ele estava viajando.
O farmacêutico, ao chegar, começou o exame da pequena e, ao retirar a roupa da criança, qual não foi a surpresa de todos e desespero dos amigos e dos familiares ao verem que um enorme escorpião, provavelmente escondido nas gretas da madeira da mesa, cravou o seu ferrão bem no peito da criança.
Antes mesmo de o escorpião ser retirado, os olhos de Maria já haviam se fechado e o que era uma tentativa de cura tornara-se uma sentença de morte. Sem dúvida, uma cena de grande tristeza, uma criança sobre a mesa de madeira, velas acesas, choro e dor na madrugada fria na Rua Direita.
A mãe, com a medalha de Nossa Senhora da Graças nas mãos, rezava aflita, pedia o milagre que a filha voltasse a viver, crescer e encher de alegria os corredores do casarão junto com seus outros irmãos.
            Conta-se que, de repente, a criança começou a chorar, as velas se apagaram, as portas bateram e os clamores foram atendidos pelos céus. Maria voltara dos mortos.
Algumas pessoas chegaram às sacadas e, ao olharem em direção à Igreja da Sé, avistaram um clarão vindo do céu, de onde desciam anjos e a Virgem das Graças de mãos dadas com as três virgens proclamadas padroeiras da cidade: Nossa Senhora do Carmo, a Virgem Conceição e Nossa Senhora da Assunção.
Foi um espetáculo de grande beleza coroado ainda pela musicalidade do Hino de Mariana, escrito pelo morador e escritor solitário da Rua Direita, Dr.Alphonsus Guimaraens.
Ana, com lágrimas nos olhos e um grande sorriso nos lábios, conta que só quem viu pode acreditar, pois foi o maior milagre que o povo de Mariana já presenciou.
Essa narrativa demonstra a grande vocação religiosa dos moradores da nossa cidade, e foi por isso que resolvi compartilhar com você, caro leitor, esse surpreendente causo.

Jacqueline Antunes     
Professora e pedagoga.
Texto publicado no jornal O tempo dos Inconfidentes – 28/08/2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

BEM ACOMPANHADA


A vida é frenética na sociedade pós-moderna. Corremos para o trabalho, para o salão de beleza, para o banco e durante o percurso costumamos atropelar os clientes que estão na fila para chegar, logo, a nossa vez. Muitos correm até para a morte.
Falarei, um pouco, sobre o silêncio, a poesia e a literatura. Relatarei algo que me aconteceu em um consultório médico. Esperava a minha vez para uma consulta e aproveitei a pausa para terminar um livro de crônicas – Pés no chão da escritora que reside em Mariana, Andreia Donadon Leal – e sentir o silêncio que aquele ambiente exalava no final da tarde de uma segunda-feira.                   
    Neste horário, geralmente, eu, como muitos trabalhadores brasileiros, estaria numa correria desastrosa para chegar em casa. O único ônibus que circula na cidade passa abarrotado e a ida para o meu lugar de descanso é muito desgastante. Costumo chegar em casa e continuar a lida – corro para dar banho no meu filho,olho sua agenda de dever de casa, preparo o jantar, confiro se está tudo certo para a feira do dia seguinte, dou um olhar para o meu marido e checo os meus e-mails.
    Ufa! Que alívio estar ali, naquela sala confortável, viajando nas histórias de um livro. Eu lia e parava, por alguns momentos, para sorrir como um leitor que se apresenta como cúmplice da história. Ria do enredo que ecoava em minha mente como vozes, como se saíssem do meu espelho feminino, pois a autora escrevia sobre o que vivencio e critico. Em alguns momentos, eu me sentia como a personagem e em outros, como a escritora.
    A sala de espera é um lugar que gosto. Eu não tenho gozo pela doença, pelo contrário, mas aquela espera era uma pausa na correria do dia a dia.  Lembrar-me de que posso ter momentos de tranquilidade e de como é bom parar para sentir o prazer do silêncio e da leitura, já que, sempre, carrego comigo um livro na bolsa.
  Estava indo tudo muito bem, quando uma mulher que, também, esperava por sua consulta começou a reclamar da demora do médico e imaginando que eu iria concordar com ela me cutucou. Evitando ser deselegante, eu sorri e continuei a minha leitura. Passados alguns instantes, quando pensava que a vida era pleno silêncio e poesia, ela recomeça o seu discurso lamentoso sobre como é corrida a vida de uma dona de casa.
Sei de cor e salteado este discurso e naquele momento estava destinada a cuidar da minha saúde física, mental e emocional, afinal, estava na companhia de um livro e curtindo o grande prazer que a leitura me proporcionava. Olhei para aquela mulher com cara de nada! Já viram cara de nada? Eu não discordo com você, eu não concordo com você e eu não estou nem ligando para o seu papo. Fim.
     Não, não era o final, aquela moça não queria só falar da sua vida corrida. Ela queria ter alguém como cúmplice, ela esbravejou toda a sua história, sua insatisfação e me escolheu como ouvinte. Imagine se eu queria ouvir, naquela hora da noite, uma paciente a beira de um ataque de nervos. Levantei-me, peguei minha bolsa, meu livro, olhei para ela, sorri e saí.
    Fui para antessala, pois afinal havia chegado a hora da minha consulta e não havia me dado conta disso. Quando saí, ela estava pronta para entrar. Sorrimos uma para outra. Fiquei pensando: será que ela entendeu meu recado e colocou-se a sorrir e relaxar para prosseguir sua noite de forma mais leve e sem tanto estresse.
    Ao ler um livro, penso que sou um paciente conversando intimamente com o meu analista. Fica aqui uma dica para aqueles que na vida corrida fazem cenas de mau humor e falta de paciência.  A receita é simples! Carregue sempre um livro na bolsa e saia em boa companhia, esse pode ser um remédio infalível contra o tédio e o estresse.


Jacqueline Antunes -
Pedagoga e professora.

Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 22/08/2012

sábado, 18 de agosto de 2012

CARA LIMPA



Domingo, o céu sem nenhuma nuvem e o sol aquecendo nossa alma na manhã de inverno. Ouro Preto, minha cidade natal, apresenta uma paisagem recortada pelo verde musgo das montanhas que vai de encontro ao azul do céu de agosto. A cidade guarda mistérios de amores, poder, tramas, traições e mortes. Não conhecemos toda a sua história, parte dela está velada por contradições e segredos; mas deixemos as questões históricas de lado e voltemos à nossa conversa.
Eu estava sentada no Adro da Igreja Nossa Senhora da Conceição, que fica no bairro Antônio Dias, onde havia marcado um encontro com a arte e a música afinada do Grupo Candongueiros.O grupo apresentava um requintado repertório – Caetano Veloso, Chico Buarque, Gonzaguinha, Beth Carvalho, Cartola, dentre outros.
Vão chegando conhecidos e amigos e se formando as rodas de samba e bate-papo.Eu levanto-me da escadaria e começo a dançar quando alguém me faz uma pergunta: “Você consegue dançar sem consumir bebida alcóolica?”.
Costumo dizer que dançar é como exorcizar todo o cansaço, é renovar as forças para a labuta que vem pela frente. Eu não estava bebendo. Gosto de vinho e cerveja, mas consumir bebida alcoólica não é um hábito. Parei, por um momento, e observei que eram poucas as pessoas que não estavam com um copo na mão, salvas as crianças.
Caro leitor, é comum o estranhamento de muitos ao se depararem comigo dançando descontraidamente de cara limpa. Se eu vou para o trabalho, educo meus filhos e ando pelas ruas de cara limpa, então, naturalmente, posso dançar de cara limpa. Eu não acredito que, para se divertir, ir para a noitada e participar de um cortejo, seja necessário usar subterfúgios.
Não estou fazendo um discurso careta e não sou a dona da verdade, como canta o poeta, Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é (...)”. Muitos só conseguem se descontrair quando consomem bebida alcóolica ou quando fazem uso do ópio para aliviar o constrangimento.
A vida é um carnaval de arlequins e de colombinas, de amores e de ódios, de acertos e de desacertos e neste compasso e descompasso, idas e voltas, vida e morte, nós vamos tecendo as nossas histórias. Vamos levantar poeira da hipocrisia, da ganancia, do poder autoritário e corruptível, da educação desmoralizada e da saúde precária para criar, sem muito blá, blá, blá, um novo bloco da segurança, da confiança e da democracia.  Devemos encarar as desventuras da vida com mais força, garra e fé para construirmos uma nova história.

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal o Tempo dos Inconfidentes - 15/08/2012

sábado, 11 de agosto de 2012

MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA




Por Cristiano Vilas Boas (Álbuns)
Lembro-me com saudade das pessoas que fizeram parte da minha infância em Mariana.Amália Layon, irmã do pintor e entalhador Elias Layon; Professor Waldemar Moura Santos; Efigênia Miguel,filha dolibanês José Miguel, professora primária; Mestre Vicente; vovó Bela e tiaLica, mulheres admiráveis, que cuidavam da casa da Sopa; Padre Avelar que subia e descia as ladeiras da cidade, ora em direção ao antigo Colégio que levava seu nome, ora para o Colégio Providência, com a missão de ouvir os seus fiéis no confessionário. Uma figura marcanteem minhamemória, que merece destaque nesta nossa conversa, é o corredor, Galo Véio.
Eu morava na casa número 6 na Rua Dom Silvério conhecida como Rua Nova pelos moradores da região. O sol saía timidamente nas primeiras horas da manhã, quandoGalo Véio aparecia. Um sujeito franzino queaparentava ter um pouco mais de 50 anos e vestiaum short ralo e uma camiseta fina demais para o frio desta terra.
Sujeito humilde que entrava pelo corredor comprido e de lajotas vermelhas da minha casa, com a boca pronta para tomar um café com pão.Reclamava da dor que sentia no estomago e que o incomodou por muito tempo de sua vida.Suspirava daqui, reclamava acolá, pegava a enxada e começava a capinar o terreiro que chegava até a ribanceira da Rua do Catete.
Eu, menina de pés descalços, ficava no quintal, debaixo do pé de goiaba, espiando aquele homem em seu labor. Ele morou em Mariana por muitos anos, capinou os quintais dos moradores da cidade durante muito tempo e marcou seus passos na vida diária desta terra.  Na Sexta- Feira Santa, Galo Véio marcava presença, atravessava as ruas batendo uma matraca. Mesmo com a saúde debilitada, correu pela cidade que morava, pelas avenidas e pelas estradas do Brasil.
Um corredor com olhos pedintes de pão, pura simplicidade e poucas palavras. Ele nos deixou a marca do atletismo e com firmeza participou, várias vezes,da Corrida de São Silvestre. Um atleta determinado e obstinado que, sempre, completava o percurso da maratona.
Lembro-me bem das poucas palavras que pronunciava, a cada pão nosso de cada dia que ele recebia nas casas marianenses, onde trabalhava, proferia um fervoroso Deus lhe ajude.
 Estive conversando com o Professor Décio Gabriel que era seu amigo e incentivador, que o considera exemplo de humildade, resistência e fé.A história do esporte de Mariana não existe sem a participação de Jaime Estevão Gonçalves, conhecido como Galo Véio, atleta e obreiro.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 08/08/2012

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

EDUCAR COM A VIDA



Um casal de moradores de rua encontrou vinte mil reais em dinheiro e notas fiscais, que haviam sido furtados em um restaurante em São Paulo. Eles procuraram a polícia e entregaram a quantia ao proprietário. A ação inesperada foi noticiada em jornais, revistas e nas redes sociais. Foram aclamados como heróis, num país onde a ética não tem sido a prática cotidiana.
 Pessoas estigmatizadas diariamente, mendigos, que não têm escolaridade, vivem sem lenço e sem documento, foram capazes de entregar ao dono quantia considerável, que poderia livrá-los, por um tempo, da vida sub-humana em que vivem.
A sociedade pós-moderna mostra a violência, escancarada por toda parte, como algo rotineiro.  Atitudes embasadas no respeito, na ética e na moral, que deveriam ser corriqueiras, são tratadas como extraordinárias, por não serem comuns no dia a dia.
 Ao refletir sobre o fato lembrei de uma cena acontecida em junho, na praia de Copacabana. Uma vendedora ambulante vendia óculos de Sol, quando um guarda chegou e apreendeu toda a mercadoria.  Momentos depois, fui em direção ao calçadão e reconheci o policial, de óculos novos, a distribuir a mercadoria apreendida aos colegas fardados, pessoas que deveriam cuidar da segurança dos cidadãos
Estamos diante de ações que ferem a ética o tempo todo. Não estou fazendo generalizações, nem todo guarda agiria assim, e nem todo morador de rua devolveria o dinheiro. A questão não é quem, mas a frequência com que presenciamos atos negligentes e atos nobres.
A violência bate a nossa porta desde o amanhecer e corre madrugada adentro. Ela está em toda parte, desde os furtos e assassinatos até as atitudes, tais como, furar filas, encontrar aparelhos celulares e se apropriar deles, vandalizar patrimônios públicos e privados, dentre outras tantas ações corruptíveis.
Estamos lidando diariamente com todo tipo de vilão. Temos que ficar atentos para nos proteger dos lobos, mas não podemos esquecer que muitos vestem pele de cordeiro.
Será que o melhor a fazer é nos fecharmos em casas com cercas elétricas, alarmes, etc.? Só sair de casa de carro blindado? Será que deveremos ser assolados pelo medo de sermos saqueados a todo momento?
Aclamo de pé o casal que teve coragem de devolver o dinheiro que não lhes pertencia. Eles merecem louvores por um ato tão honrado e tão incomum na nossa vida cotidiana. Um deles relatou que estava, apenas, seguindo o que a mãe lhe ensinou: devolver o que é do outro, não ficar com o que não é seu. Se todas as mães se preocupassem em dar bons exemplos não haveria tanta agressividade.
Em um mundo onde o capital impera, nós, pais, precisamos dizer aos nossos filhos que nem tudo o que eles querem, poderão ter. Sem ações educativas não formaremos cidadãos e, sim, tiranos. Muitos que desfilam pelas ruas vestidos de mocinhos, na verdade, usam o poder equivocadamente, têm atitudes imorais, são hipócritas e suas atitudes contradizem a imagem que passam para a sociedade.
Não devemos usar o fatalismo para justificar a nossa apatia diante das adversidades. Resta-nos uma esperança. A educação é a luz no fim do túnel. Como cidadãos, devemos lutar para que ela possa atender com qualidade a todos, para que tenhamos melhores condições de vida. É um trabalho que exigirá fé, perseverança e iniciativa. Mãos à obra!

Jaqueline Antunes
Professora e Pedagoga

Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes dia 01/08/2012