quarta-feira, 29 de agosto de 2012

RELIGIOSIDADE E CIDADE: O MILAGRE DE MARIA


Em Mariana, podemos encontrar um conjunto arquitetônico que guarda preciosidades do período colonial: igrejas, casarões e praças.Toda essa riqueza se perpetua ainda hoje e se mostra viva na tradição e na forte religiosidade que sempre esteve presente em toda a história marianense, com grande riqueza histórica e também folclórica.
A história contada aqui é real, a senhora ainda reside na cidade, e, por questão de profunda timidez, não quis ter seu nome revelado. Conta Ana, sobrinha de Maria, que, no ano de 1961, aconteceu um milagre com sua tia. Milagre que me ponho a narrar com grande prazer.
Numa das mais belas ruas mineiras, a famosa Rua Direita de Mariana, em um dos casarões que compõe o cenário precioso desta história, morava uma família composta por 14 filhos.
Certa ocasião, a nona filha foi acometida por uma doença terrível e, no desespero de curá-la do mau, seus parentese vizinhos fizeram-na deitar-se sobre a mesa de madeira, da forma que só os mortos ficavam deitados. Naquela época, as pessoas colocavam-se ao redor da mesa velando o defunto ou compondo o rito da “simpatia”. Uma crença que, hoje, parece beirar o nonsense.
A mãe da criança, pessoa muito religiosa, ao escutar o choro incessante da sua filha, disposta sozinha sobre a mesa, mandou chamar o farmacêutico, profissional que se fazia, às vezes, de médico,  já que na cidade, naquela ocasião, só existia o Doutor Elias, porém, ele estava viajando.
O farmacêutico, ao chegar, começou o exame da pequena e, ao retirar a roupa da criança, qual não foi a surpresa de todos e desespero dos amigos e dos familiares ao verem que um enorme escorpião, provavelmente escondido nas gretas da madeira da mesa, cravou o seu ferrão bem no peito da criança.
Antes mesmo de o escorpião ser retirado, os olhos de Maria já haviam se fechado e o que era uma tentativa de cura tornara-se uma sentença de morte. Sem dúvida, uma cena de grande tristeza, uma criança sobre a mesa de madeira, velas acesas, choro e dor na madrugada fria na Rua Direita.
A mãe, com a medalha de Nossa Senhora da Graças nas mãos, rezava aflita, pedia o milagre que a filha voltasse a viver, crescer e encher de alegria os corredores do casarão junto com seus outros irmãos.
            Conta-se que, de repente, a criança começou a chorar, as velas se apagaram, as portas bateram e os clamores foram atendidos pelos céus. Maria voltara dos mortos.
Algumas pessoas chegaram às sacadas e, ao olharem em direção à Igreja da Sé, avistaram um clarão vindo do céu, de onde desciam anjos e a Virgem das Graças de mãos dadas com as três virgens proclamadas padroeiras da cidade: Nossa Senhora do Carmo, a Virgem Conceição e Nossa Senhora da Assunção.
Foi um espetáculo de grande beleza coroado ainda pela musicalidade do Hino de Mariana, escrito pelo morador e escritor solitário da Rua Direita, Dr.Alphonsus Guimaraens.
Ana, com lágrimas nos olhos e um grande sorriso nos lábios, conta que só quem viu pode acreditar, pois foi o maior milagre que o povo de Mariana já presenciou.
Essa narrativa demonstra a grande vocação religiosa dos moradores da nossa cidade, e foi por isso que resolvi compartilhar com você, caro leitor, esse surpreendente causo.

Jacqueline Antunes     
Professora e pedagoga.
Texto publicado no jornal O tempo dos Inconfidentes – 28/08/2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

BEM ACOMPANHADA


A vida é frenética na sociedade pós-moderna. Corremos para o trabalho, para o salão de beleza, para o banco e durante o percurso costumamos atropelar os clientes que estão na fila para chegar, logo, a nossa vez. Muitos correm até para a morte.
Falarei, um pouco, sobre o silêncio, a poesia e a literatura. Relatarei algo que me aconteceu em um consultório médico. Esperava a minha vez para uma consulta e aproveitei a pausa para terminar um livro de crônicas – Pés no chão da escritora que reside em Mariana, Andreia Donadon Leal – e sentir o silêncio que aquele ambiente exalava no final da tarde de uma segunda-feira.                   
    Neste horário, geralmente, eu, como muitos trabalhadores brasileiros, estaria numa correria desastrosa para chegar em casa. O único ônibus que circula na cidade passa abarrotado e a ida para o meu lugar de descanso é muito desgastante. Costumo chegar em casa e continuar a lida – corro para dar banho no meu filho,olho sua agenda de dever de casa, preparo o jantar, confiro se está tudo certo para a feira do dia seguinte, dou um olhar para o meu marido e checo os meus e-mails.
    Ufa! Que alívio estar ali, naquela sala confortável, viajando nas histórias de um livro. Eu lia e parava, por alguns momentos, para sorrir como um leitor que se apresenta como cúmplice da história. Ria do enredo que ecoava em minha mente como vozes, como se saíssem do meu espelho feminino, pois a autora escrevia sobre o que vivencio e critico. Em alguns momentos, eu me sentia como a personagem e em outros, como a escritora.
    A sala de espera é um lugar que gosto. Eu não tenho gozo pela doença, pelo contrário, mas aquela espera era uma pausa na correria do dia a dia.  Lembrar-me de que posso ter momentos de tranquilidade e de como é bom parar para sentir o prazer do silêncio e da leitura, já que, sempre, carrego comigo um livro na bolsa.
  Estava indo tudo muito bem, quando uma mulher que, também, esperava por sua consulta começou a reclamar da demora do médico e imaginando que eu iria concordar com ela me cutucou. Evitando ser deselegante, eu sorri e continuei a minha leitura. Passados alguns instantes, quando pensava que a vida era pleno silêncio e poesia, ela recomeça o seu discurso lamentoso sobre como é corrida a vida de uma dona de casa.
Sei de cor e salteado este discurso e naquele momento estava destinada a cuidar da minha saúde física, mental e emocional, afinal, estava na companhia de um livro e curtindo o grande prazer que a leitura me proporcionava. Olhei para aquela mulher com cara de nada! Já viram cara de nada? Eu não discordo com você, eu não concordo com você e eu não estou nem ligando para o seu papo. Fim.
     Não, não era o final, aquela moça não queria só falar da sua vida corrida. Ela queria ter alguém como cúmplice, ela esbravejou toda a sua história, sua insatisfação e me escolheu como ouvinte. Imagine se eu queria ouvir, naquela hora da noite, uma paciente a beira de um ataque de nervos. Levantei-me, peguei minha bolsa, meu livro, olhei para ela, sorri e saí.
    Fui para antessala, pois afinal havia chegado a hora da minha consulta e não havia me dado conta disso. Quando saí, ela estava pronta para entrar. Sorrimos uma para outra. Fiquei pensando: será que ela entendeu meu recado e colocou-se a sorrir e relaxar para prosseguir sua noite de forma mais leve e sem tanto estresse.
    Ao ler um livro, penso que sou um paciente conversando intimamente com o meu analista. Fica aqui uma dica para aqueles que na vida corrida fazem cenas de mau humor e falta de paciência.  A receita é simples! Carregue sempre um livro na bolsa e saia em boa companhia, esse pode ser um remédio infalível contra o tédio e o estresse.


Jacqueline Antunes -
Pedagoga e professora.

Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 22/08/2012

sábado, 18 de agosto de 2012

CARA LIMPA



Domingo, o céu sem nenhuma nuvem e o sol aquecendo nossa alma na manhã de inverno. Ouro Preto, minha cidade natal, apresenta uma paisagem recortada pelo verde musgo das montanhas que vai de encontro ao azul do céu de agosto. A cidade guarda mistérios de amores, poder, tramas, traições e mortes. Não conhecemos toda a sua história, parte dela está velada por contradições e segredos; mas deixemos as questões históricas de lado e voltemos à nossa conversa.
Eu estava sentada no Adro da Igreja Nossa Senhora da Conceição, que fica no bairro Antônio Dias, onde havia marcado um encontro com a arte e a música afinada do Grupo Candongueiros.O grupo apresentava um requintado repertório – Caetano Veloso, Chico Buarque, Gonzaguinha, Beth Carvalho, Cartola, dentre outros.
Vão chegando conhecidos e amigos e se formando as rodas de samba e bate-papo.Eu levanto-me da escadaria e começo a dançar quando alguém me faz uma pergunta: “Você consegue dançar sem consumir bebida alcóolica?”.
Costumo dizer que dançar é como exorcizar todo o cansaço, é renovar as forças para a labuta que vem pela frente. Eu não estava bebendo. Gosto de vinho e cerveja, mas consumir bebida alcoólica não é um hábito. Parei, por um momento, e observei que eram poucas as pessoas que não estavam com um copo na mão, salvas as crianças.
Caro leitor, é comum o estranhamento de muitos ao se depararem comigo dançando descontraidamente de cara limpa. Se eu vou para o trabalho, educo meus filhos e ando pelas ruas de cara limpa, então, naturalmente, posso dançar de cara limpa. Eu não acredito que, para se divertir, ir para a noitada e participar de um cortejo, seja necessário usar subterfúgios.
Não estou fazendo um discurso careta e não sou a dona da verdade, como canta o poeta, Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é (...)”. Muitos só conseguem se descontrair quando consomem bebida alcóolica ou quando fazem uso do ópio para aliviar o constrangimento.
A vida é um carnaval de arlequins e de colombinas, de amores e de ódios, de acertos e de desacertos e neste compasso e descompasso, idas e voltas, vida e morte, nós vamos tecendo as nossas histórias. Vamos levantar poeira da hipocrisia, da ganancia, do poder autoritário e corruptível, da educação desmoralizada e da saúde precária para criar, sem muito blá, blá, blá, um novo bloco da segurança, da confiança e da democracia.  Devemos encarar as desventuras da vida com mais força, garra e fé para construirmos uma nova história.

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal o Tempo dos Inconfidentes - 15/08/2012

sábado, 11 de agosto de 2012

MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA




Por Cristiano Vilas Boas (Álbuns)
Lembro-me com saudade das pessoas que fizeram parte da minha infância em Mariana.Amália Layon, irmã do pintor e entalhador Elias Layon; Professor Waldemar Moura Santos; Efigênia Miguel,filha dolibanês José Miguel, professora primária; Mestre Vicente; vovó Bela e tiaLica, mulheres admiráveis, que cuidavam da casa da Sopa; Padre Avelar que subia e descia as ladeiras da cidade, ora em direção ao antigo Colégio que levava seu nome, ora para o Colégio Providência, com a missão de ouvir os seus fiéis no confessionário. Uma figura marcanteem minhamemória, que merece destaque nesta nossa conversa, é o corredor, Galo Véio.
Eu morava na casa número 6 na Rua Dom Silvério conhecida como Rua Nova pelos moradores da região. O sol saía timidamente nas primeiras horas da manhã, quandoGalo Véio aparecia. Um sujeito franzino queaparentava ter um pouco mais de 50 anos e vestiaum short ralo e uma camiseta fina demais para o frio desta terra.
Sujeito humilde que entrava pelo corredor comprido e de lajotas vermelhas da minha casa, com a boca pronta para tomar um café com pão.Reclamava da dor que sentia no estomago e que o incomodou por muito tempo de sua vida.Suspirava daqui, reclamava acolá, pegava a enxada e começava a capinar o terreiro que chegava até a ribanceira da Rua do Catete.
Eu, menina de pés descalços, ficava no quintal, debaixo do pé de goiaba, espiando aquele homem em seu labor. Ele morou em Mariana por muitos anos, capinou os quintais dos moradores da cidade durante muito tempo e marcou seus passos na vida diária desta terra.  Na Sexta- Feira Santa, Galo Véio marcava presença, atravessava as ruas batendo uma matraca. Mesmo com a saúde debilitada, correu pela cidade que morava, pelas avenidas e pelas estradas do Brasil.
Um corredor com olhos pedintes de pão, pura simplicidade e poucas palavras. Ele nos deixou a marca do atletismo e com firmeza participou, várias vezes,da Corrida de São Silvestre. Um atleta determinado e obstinado que, sempre, completava o percurso da maratona.
Lembro-me bem das poucas palavras que pronunciava, a cada pão nosso de cada dia que ele recebia nas casas marianenses, onde trabalhava, proferia um fervoroso Deus lhe ajude.
 Estive conversando com o Professor Décio Gabriel que era seu amigo e incentivador, que o considera exemplo de humildade, resistência e fé.A história do esporte de Mariana não existe sem a participação de Jaime Estevão Gonçalves, conhecido como Galo Véio, atleta e obreiro.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 08/08/2012

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

EDUCAR COM A VIDA



Um casal de moradores de rua encontrou vinte mil reais em dinheiro e notas fiscais, que haviam sido furtados em um restaurante em São Paulo. Eles procuraram a polícia e entregaram a quantia ao proprietário. A ação inesperada foi noticiada em jornais, revistas e nas redes sociais. Foram aclamados como heróis, num país onde a ética não tem sido a prática cotidiana.
 Pessoas estigmatizadas diariamente, mendigos, que não têm escolaridade, vivem sem lenço e sem documento, foram capazes de entregar ao dono quantia considerável, que poderia livrá-los, por um tempo, da vida sub-humana em que vivem.
A sociedade pós-moderna mostra a violência, escancarada por toda parte, como algo rotineiro.  Atitudes embasadas no respeito, na ética e na moral, que deveriam ser corriqueiras, são tratadas como extraordinárias, por não serem comuns no dia a dia.
 Ao refletir sobre o fato lembrei de uma cena acontecida em junho, na praia de Copacabana. Uma vendedora ambulante vendia óculos de Sol, quando um guarda chegou e apreendeu toda a mercadoria.  Momentos depois, fui em direção ao calçadão e reconheci o policial, de óculos novos, a distribuir a mercadoria apreendida aos colegas fardados, pessoas que deveriam cuidar da segurança dos cidadãos
Estamos diante de ações que ferem a ética o tempo todo. Não estou fazendo generalizações, nem todo guarda agiria assim, e nem todo morador de rua devolveria o dinheiro. A questão não é quem, mas a frequência com que presenciamos atos negligentes e atos nobres.
A violência bate a nossa porta desde o amanhecer e corre madrugada adentro. Ela está em toda parte, desde os furtos e assassinatos até as atitudes, tais como, furar filas, encontrar aparelhos celulares e se apropriar deles, vandalizar patrimônios públicos e privados, dentre outras tantas ações corruptíveis.
Estamos lidando diariamente com todo tipo de vilão. Temos que ficar atentos para nos proteger dos lobos, mas não podemos esquecer que muitos vestem pele de cordeiro.
Será que o melhor a fazer é nos fecharmos em casas com cercas elétricas, alarmes, etc.? Só sair de casa de carro blindado? Será que deveremos ser assolados pelo medo de sermos saqueados a todo momento?
Aclamo de pé o casal que teve coragem de devolver o dinheiro que não lhes pertencia. Eles merecem louvores por um ato tão honrado e tão incomum na nossa vida cotidiana. Um deles relatou que estava, apenas, seguindo o que a mãe lhe ensinou: devolver o que é do outro, não ficar com o que não é seu. Se todas as mães se preocupassem em dar bons exemplos não haveria tanta agressividade.
Em um mundo onde o capital impera, nós, pais, precisamos dizer aos nossos filhos que nem tudo o que eles querem, poderão ter. Sem ações educativas não formaremos cidadãos e, sim, tiranos. Muitos que desfilam pelas ruas vestidos de mocinhos, na verdade, usam o poder equivocadamente, têm atitudes imorais, são hipócritas e suas atitudes contradizem a imagem que passam para a sociedade.
Não devemos usar o fatalismo para justificar a nossa apatia diante das adversidades. Resta-nos uma esperança. A educação é a luz no fim do túnel. Como cidadãos, devemos lutar para que ela possa atender com qualidade a todos, para que tenhamos melhores condições de vida. É um trabalho que exigirá fé, perseverança e iniciativa. Mãos à obra!

Jaqueline Antunes
Professora e Pedagoga

Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes dia 01/08/2012