Em Mariana, podemos encontrar um conjunto arquitetônico que
guarda preciosidades do período colonial: igrejas, casarões e praças.Toda essa riqueza se perpetua ainda hoje e se mostra viva
na tradição e na forte religiosidade que sempre esteve presente em toda a história
marianense, com grande riqueza histórica e também folclórica.
A história contada aqui é real, a senhora ainda reside na
cidade, e, por questão de profunda timidez, não quis ter seu nome revelado. Conta
Ana, sobrinha de Maria, que, no ano de 1961, aconteceu um milagre com sua tia.
Milagre que me ponho a narrar com grande prazer.
Numa das mais belas ruas mineiras, a famosa Rua Direita de
Mariana, em um dos casarões que compõe o cenário precioso desta história,
morava uma família composta por 14 filhos.
Certa ocasião, a nona filha foi acometida por uma doença
terrível e, no desespero de curá-la do mau, seus parentese vizinhos fizeram-na
deitar-se sobre a mesa de madeira, da forma que só os mortos ficavam deitados.
Naquela época, as pessoas colocavam-se ao redor da mesa velando o defunto ou
compondo o rito da “simpatia”. Uma crença que, hoje, parece beirar o nonsense.
A mãe da criança, pessoa muito religiosa, ao escutar o choro
incessante da sua filha, disposta sozinha sobre a mesa, mandou chamar o
farmacêutico, profissional que se fazia, às vezes, de médico, já que na cidade, naquela ocasião, só existia
o Doutor Elias, porém, ele estava viajando.
O farmacêutico, ao chegar, começou o exame da pequena e, ao
retirar a roupa da criança, qual não foi a surpresa de todos e desespero dos
amigos e dos familiares ao verem que um enorme escorpião, provavelmente
escondido nas gretas da madeira da mesa, cravou o seu ferrão bem no peito da
criança.
Antes mesmo de o escorpião ser retirado, os olhos de Maria
já haviam se fechado e o que era uma tentativa de cura tornara-se uma sentença
de morte. Sem dúvida, uma cena de grande tristeza, uma criança sobre a mesa de
madeira, velas acesas, choro e dor na madrugada fria na Rua Direita.
A mãe, com a medalha de Nossa Senhora da Graças nas mãos,
rezava aflita, pedia o milagre que a filha voltasse a viver, crescer e encher
de alegria os corredores do casarão junto com seus outros irmãos.
Conta-se
que, de repente, a criança começou a chorar, as velas se apagaram, as portas
bateram e os clamores foram atendidos pelos céus. Maria voltara dos mortos.
Algumas pessoas chegaram às sacadas e, ao olharem em direção
à Igreja da Sé, avistaram um clarão vindo do céu, de onde desciam anjos e a
Virgem das Graças de mãos dadas com as três virgens proclamadas padroeiras da
cidade: Nossa Senhora do Carmo, a Virgem Conceição e Nossa Senhora da Assunção.
Foi um espetáculo de grande beleza coroado ainda pela
musicalidade do Hino de Mariana, escrito pelo morador e escritor solitário da
Rua Direita, Dr.Alphonsus Guimaraens.
Ana, com lágrimas nos olhos e um
grande sorriso nos lábios, conta que só quem viu pode acreditar, pois foi o
maior milagre que o povo de Mariana já presenciou.
Essa narrativa demonstra a grande
vocação religiosa dos moradores da nossa cidade, e foi por isso que resolvi
compartilhar com você, caro leitor, esse surpreendente causo.
Jacqueline
Antunes
Professora
e pedagoga.
Texto
publicado no jornal O tempo dos
Inconfidentes – 28/08/2012


