quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ATÉ QUANDO REINARÁ A ESCRAVATURA?



Esta semana, fui fazer feira num sacolão da cidade. Em meio a diversas frutas, legumes e verduras, senti que a natureza convidava-me para um banquete de cores e sabores. Eu estava inebriada com toda aquela diversidade e fartura, dirigi-me ao caixa e uma jovem atendeu-me com um largo sorriso e tom manso de bom dia.
Eu colocava as compras no caixa, quando, inesperadamente, um tom árido soou atrás de mim: – Menina, cadê a sua colega? A profissional acabara de ausentar-se do local e ele já cobrava de forma impertinente a sua presença. Quando ele me viu observando-o, começou a circular, imponente, pelos caixas, subjugando todos os funcionários.
Ele ria para mim, enquanto humilhava os funcionários, ditando regras e vociferando ordens; esperando que eu, como cliente, aplaudisse aquela cena mais condizente com o Brasil escravocrata.Tive vontade de arrancar daquele capataz o seu chicote.
Controlei-me efiquei olhando-o, sem dizer nada, mas baixinho, sussurrei no ouvido daquela moça, perguntando-a: – Ele age sempre com esta arrogância? – Ela olhou para mim e mostrando-se satisfeita por partilharmos da mesma opinião em relação a aquele sujeito agressivo, respondeu-me: – Hoje ele está de bom humor, está rindo, olhe só.
Olhei-o e aquele sorriso enojou-me. Engoli seco, paguei, dei um abraço na moça do caixa, saí enxugando meus olhos e indagando: – Como pessoas que estão trabalhando eficientemente são tratadas desta forma no século XXI?
 Na correria do dia-a-dia, o ocorrido não saiu da minha cabeça e confesso que, quando comecei a tecer o texto, um nó fechou a minha garganta.Parei, saí da frente do computador para respirar e ver com quais palavras concluiria minha colcha.
Desde os primórdios, os homens escravizavam outros homens e, ainda hoje, a escravidão faz parte da nossa história. Um problema social que gera a desigualdade e fortalece a impunidade. Cenas do Brasil colônia, escravizado por Portugal, passaram pela minha mente. Infelizmente, percebo que resquícios das práticas escravocratas permanecem nas atitudes de muitos sujeitos.
O Brasil foi um dos últimos a abolir a escravatura e parece que a ideia de superioridade que gera a exploração impregnou a nossa cultura.O processo de democracia é complicado em um país, onde os poderes públicos ainda idolatram várias formas de autoritarismo e visam interesses individuais. Até quando teremos que conviver com tais atrocidades?

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.