Queridos amigos, pretendo deixar registrado nesse espaço, alguns textos e poemas, para apreciação daqueles que porventura queiram visitar esse Blog. Jacqueline Antunes
domingo, 31 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
QUADRO DA SINHÁ
Neste sábado de chuva fina,
saí com a minha família para almoçar em um canto sossegado. Escolhemos o
Restaurante Sinhá Olímpia em Passagem de Mariana, que, desde o ano de 1981,
serve uma deliciosa comida mineira. Quando chegamos, deparei-me com um quadro
de uma figura folclórica da região: Sinhá Olímpia. Ela circulava pelas ruas de
Ouro Preto nos anos 70 e foi uma das primeiras hippies do Brasil. Contam variadas versões da sua história de vida.
Ela nasceu em Santa Rita, distrito
de Mariana, sua família era rica. Apaixonou-se por um farmacêutico pobre e seus
familiares não consentiram com o namoro. Dizem que Sinhá Olímpia veio morar em
Ouro Preto e acabou perdendo sua lucidez. Ela perambulava pelas ruas, contando
histórias irreais sobre a sua vida. Falava como se vivesse em épocas passadas, prendia
as pessoas com suas narrativas sobre grandes momentos da história do Brasil esobre
personagens ilustres.
Sinhá Olímpia apresentava
características de alguém que fora bem educada, falava um português claro e
cantava com uma bela voz pelas ladeiras de Ouro Preto. Fiquei um tempo olhando
para aquele quadro e para a imagem daquela mulher, que tive a chance de
conhecer na minha infância e que agora voltava a minha memória.Vestia um vestido
e um casaco vermelhos, referenciando o clima frio da cidade, um chapéu grande
com flores no alto e um cajado enfeitado com papéis e flores.
Mulher de finos tratos,
"louca mansa", que só demonstrava agressividade, quando as crianças perturbavam-na
com insultos. Os seus olhos pintados, naquele quadro, realçavam não a loucura,
mas a dor de um amor não correspondido. Um olhar perdido no tempo, uma história
de desilusões. Sinhá Olímpia saiu de casa, abriu mão de tudo para viver um o
amor proibido e foi abandonada por seu amado.
Personagem de visibilidade
em Ouro Preto, ela foi cantada em versos e prosas, foi tema de filmes e foi
homenageada pela Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro, com o samba
enredo "E Deu a Louca no Barroco". Recebeu a visita de Rita Lee,
Milton Nascimento, Juscelino Kubitschek, Vinícius de Moraes, dentre outros.
Com seu cigarro na boca
tragava as cinzas da má sorte, tentava ignorar a dor trazida pelo amor.Sua
figura marcou presença nas ruas de pés-de-moleque de Ouro Preto. Ela abriu mão
da vida real para viver da loucura, para viver, através das suas histórias,
momentos que nunca presenciou fisicamente, mas que faziam parte do seu
faz-de-conta. Sinhá Olímpia, mulher feminina com a alma rebelde, que entre cores,
papéis e flores, enlouqueceu por amor, arrumou um jeitinho peculiar para fugir
da sua dura realidade.
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
domingo, 3 de março de 2013
EDUCAR PARA A DEMOCRACIA
Caro leitor, pensei em vários
temas para refletirmos nesta semana. Poderia falar sobre as dificuldades que o
Brasil, por ser um país recém-nascido para a democracia e ainda marcado pela
colonização, apresenta para alcançar uma maior autonomia social, política e
econômica na esfera mundial.Cogitei, também,escrever sobre a blogueira Yoani
Sánchez, conhecida como uma dissidente cubana que escolheu o Brasil como o
primeiro destino da viagem que fará por 80 países.
Imaginei o luto das famílias
de Santa Maria e como estaria, hoje, cada mãe, cada amigo das pessoas que
morreram em uma tragédia coletiva que, com o tempo, será esquecida pela mídia,
mas a dor dos envolvidos só aumentará diante da ausência. Lembrei-me da renúncia
de Bento XVI, o primeiro Papa a renunciar em um período de 600 anos e o que
esse fato provocará na história da igreja e nas eleições italianas. Pensei em
tantos temas relevantes e acabei escolhendo relatar uma história do meu
cotidiano, algo simples e que, muitas vezes, passa despercebido aos olhos.
Neste fim de semana, levei
meu filho para brincar no Jardim. As crianças brincavam de bola, bicicleta,
esconde-esconde e outras brincadeiras que surgiram no decorrer da tarde. Ele
participava das brincadeiras, tirava as sandálias, colocava os pés no chão,
tomava sorvete e lambuzava-se,correndo daqui e correndo de lá. Retratava a bela
vida de moleque.
Algumas vezes, ia até ele e
dava algumas orientações necessárias para a lei da boa convivência com amigos e
com o patrimônio público.De repente, chegou uma criança com um carro motorizado
e ficou passeando com aquele brinquedo bonito e lustroso pelo Jardim. Como o
carro era a bateria, a criança ficou horas dentro de um brinquedo sem fazer
nenhuma atividade: não pedalava, não jogava, não se relacionava com outras
crianças e não gastava energia.
A noite chegou, eu peguei a
mão suja do meu filho, que estava rodeado de crianças, despedimo-nos de todos e
fomos embora. Fui para casa pensando sobre os desafios que os pais enfrentam
para criar seus filhos. Não há receita,cada sujeito tem
sua singularidade. Creio que o maior desafio para os pais é criar os filhos sem
seguir um modelo capitalista.
Comprar um brinquedo para a
criança que não irá ajudá-la a desenvolver um papel social é empobrecedor. É na
brincadeira que a criança constrói suas relações com outras crianças, estabelece
regras de convivência.Quem sabe se, desde a mais tenra idade, as relações forem
estabelecidas entre parcerias, entre encontros e desencontros; a sociedade viverá
em harmonia e a democracia atingirá seu real significado.
Será que nós queremos viver
a democracia? Será que estamos preparados para isso? Não será papel da educação
familiar e escolar preparar uma civilização mais livre e democrática?
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
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