Sábado, entro
no transporte coletivo que circula na cidade de Mariana e percebo um movimento
fora do normal. Há um tempo, relatei uma série de problemas acerca do
transporte coletivo em um texto publicado neste jornal. Será que, neste
intervalo de tempo, aconteceram melhorias que beneficiaram os usuários deste
serviço. Eu uso o transporte coletivo diariamente e, particularmente, não notei
nenhuma mudança positiva. Voltemos ao ônibus lotado de pessoas com eu, cidadãos
que têm um salário baixo e uma árdua rotina diária. Ao olhar pela janela, vejo
as ruas cheias e os comércios abarrotados.
Em meio a um
trânsito infernal, chego ao meu destino e lembro-me que o número incomum de
pessoas nas lojas está relacionado com a chegada do Natal. O espírito natalino
está mais ligado ao “bom velhinho”, de barbas brancas e roupas escarlates do
que ao nascimento de Jesus. Será que o Pai Noel não é o Filho, Pai ou compadre
do sistema capitalista que nos faz consumir desenfreadamente?
No momento das
compras o sujeito ganha um grande poder ilusório, consumir para saciar desejos
infundados dá às pessoas uma sensação de satisfação momentânea. É aí que mora o
perigo. Caro leitor, passado o Natal vem as promessas do Ano Novo, as festas,
as férias e mais gastos. Carnaval é uma loucura total, ninguém pensa em coisas
sérias, só querem saber de folia; mas, inevitavelmente, chega Março.
O Congresso
abre suas portas, meio apático, para o trabalho; pois, depois um recesso tão
prolongado, é preciso que o povo seja paciente até que os políticos ajeitem
suas musculaturas. Finalmente “inicia-se” o ano no Brasil. A realidade vai
caindo de paraquedas na cabeça do sujeito endividado, que não consegue mais
dormir sossegado. O bom velhinho não retorna e, agora, o seu fiel companheiro
são suas dívidas, que estão fervilhando os seus pensamentos. Ele olha para o
céu e pede a Jesus que brilhe na sua vida, pois se esqueceu de voltar seus
olhos para as luzes no Natal e celebrar o nascimento de Cristo.
O tempo passa,
o ano transcorre, chega o final do ano e você acha que as pessoas se lembrarão
do sufoco e das dívidas do ano anterior? Posso apostar que muitas esquecerão e
repetirão o mesmo processo, que se torna um ciclo vicioso em suas vidas.
Parece-me que faz parte da cultura do brasileiro esquecer-se dos dramas
vividos, não aprendendo a lição e seguindo sempre o mesmo caminho, iludidos
pela falsa satisfação e por acharem que mais vale uma dívida na mão do que o
objeto cobiçado voando.
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 12/12/2012
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 12/12/2012

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