quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

QUEM SE LEMBRA DO ESPÍRITO NATALINO?




Sábado, entro no transporte coletivo que circula na cidade de Mariana e percebo um movimento fora do normal. Há um tempo, relatei uma série de problemas acerca do transporte coletivo em um texto publicado neste jornal. Será que, neste intervalo de tempo, aconteceram melhorias que beneficiaram os usuários deste serviço. Eu uso o transporte coletivo diariamente e, particularmente, não notei nenhuma mudança positiva. Voltemos ao ônibus lotado de pessoas com eu, cidadãos que têm um salário baixo e uma árdua rotina diária. Ao olhar pela janela, vejo as ruas cheias e os comércios abarrotados.
Em meio a um trânsito infernal, chego ao meu destino e lembro-me que o número incomum de pessoas nas lojas está relacionado com a chegada do Natal. O espírito natalino está mais ligado ao “bom velhinho”, de barbas brancas e roupas escarlates do que ao nascimento de Jesus. Será que o Pai Noel não é o Filho, Pai ou compadre do sistema capitalista que nos faz consumir desenfreadamente?
No momento das compras o sujeito ganha um grande poder ilusório, consumir para saciar desejos infundados dá às pessoas uma sensação de satisfação momentânea. É aí que mora o perigo. Caro leitor, passado o Natal vem as promessas do Ano Novo, as festas, as férias e mais gastos. Carnaval é uma loucura total, ninguém pensa em coisas sérias, só querem saber de folia; mas, inevitavelmente, chega Março.
O Congresso abre suas portas, meio apático, para o trabalho; pois, depois um recesso tão prolongado, é preciso que o povo seja paciente até que os políticos ajeitem suas musculaturas. Finalmente “inicia-se” o ano no Brasil. A realidade vai caindo de paraquedas na cabeça do sujeito endividado, que não consegue mais dormir sossegado. O bom velhinho não retorna e, agora, o seu fiel companheiro são suas dívidas, que estão fervilhando os seus pensamentos. Ele olha para o céu e pede a Jesus que brilhe na sua vida, pois se esqueceu de voltar seus olhos para as luzes no Natal e celebrar o nascimento de Cristo.
O tempo passa, o ano transcorre, chega o final do ano e você acha que as pessoas se lembrarão do sufoco e das dívidas do ano anterior? Posso apostar que muitas esquecerão e repetirão o mesmo processo, que se torna um ciclo vicioso em suas vidas. Parece-me que faz parte da cultura do brasileiro esquecer-se dos dramas vividos, não aprendendo a lição e seguindo sempre o mesmo caminho, iludidos pela falsa satisfação e por acharem que mais vale uma dívida na mão do que o objeto cobiçado voando.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto  publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 12/12/2012

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