Esta semana, fui fazer feira
num sacolão da cidade. Em meio a diversas frutas, legumes e verduras, senti que
a natureza convidava-me para um banquete de cores e sabores. Eu estava inebriada
com toda aquela diversidade e fartura, dirigi-me ao caixa e uma jovem atendeu-me
com um largo sorriso e tom manso de bom dia.
Eu colocava as compras no
caixa, quando, inesperadamente, um tom árido soou atrás de mim: – Menina, cadê
a sua colega? A profissional acabara de ausentar-se do local e ele já cobrava
de forma impertinente a sua presença. Quando ele me viu observando-o, começou a
circular, imponente, pelos caixas, subjugando todos os funcionários.
Ele ria para mim, enquanto
humilhava os funcionários, ditando regras e vociferando ordens; esperando que
eu, como cliente, aplaudisse aquela cena mais condizente com o Brasil
escravocrata.Tive vontade de arrancar daquele capataz o seu chicote.
Controlei-me efiquei olhando-o,
sem dizer nada, mas baixinho, sussurrei no ouvido daquela moça, perguntando-a:
– Ele age sempre com esta arrogância? – Ela olhou para mim e mostrando-se
satisfeita por partilharmos da mesma opinião em relação a aquele sujeito
agressivo, respondeu-me: – Hoje ele está de bom humor, está rindo, olhe só.
Olhei-o e aquele sorriso
enojou-me. Engoli seco, paguei, dei um abraço na moça do caixa, saí enxugando meus
olhos e indagando: – Como pessoas que estão trabalhando eficientemente são
tratadas desta forma no século XXI?
Na correria do dia-a-dia, o ocorrido não saiu
da minha cabeça e confesso que, quando comecei a tecer o texto, um nó fechou a
minha garganta.Parei, saí da frente do computador para respirar e ver com quais
palavras concluiria minha colcha.
Desde os primórdios, os homens
escravizavam outros homens e, ainda hoje, a escravidão faz parte da nossa história.
Um problema social que gera a desigualdade e fortalece a impunidade. Cenas do
Brasil colônia, escravizado por Portugal, passaram pela minha mente.
Infelizmente, percebo que resquícios das práticas escravocratas permanecem nas
atitudes de muitos sujeitos.
O Brasil foi um dos últimos
a abolir a escravatura e parece que a ideia de superioridade que gera a
exploração impregnou a nossa cultura.O processo de democracia é complicado em
um país, onde os poderes públicos ainda idolatram várias formas de
autoritarismo e visam interesses individuais. Até quando teremos que conviver
com tais atrocidades?
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário