quinta-feira, 16 de maio de 2013

A PAIXÃO CEGA DO TAXISTA



Estou sentada no Parque Municipal, olhando meu filho divertir-se com os brinquedos. A orquestra toca e lembro-me da narração feita pelo taxista na noite anterior. Eu entrei no taxi, inebriada pela música boa que ouvi na voz do poeta, Caetano Veloso. O motorista contou-me várias histórias, durante o percurso, sobre o cotidiano da capital de Minas Gerais. Uma delas me fez lembrar das peças passionais de Nelson Rodrigues.
Eram dois sujeitos, um homem e uma mulher. Saíam todas as madrugadas para os bares da capital. Lá pelas tantas, o telefone do taxista tocava: - Venha me buscar, com ele não fico mais.Sujeito nojento, canalha, violento. A mulher destilava todo o seu veneno, classificando o companheiro como a pior pessoa do mundo. O motorista ouvia pacientemente, buscava-a e levava-a para sua residência.
No outro dia, antes do sol levantar-se, o motorista recebia outro telefonema. Era o homem, com voz de arrependimento, solicitando ao taxista que fosse até a mulher amada e entregasse rosas para ela, com um cartão que continha um pedido de perdão.O motorista subiu as escadas do prédio, entregou as rosas e sem, ao menos, se explicar, recebeu um soco nos olhos e um pontapé na bunda.
Essa situação de telefonemas durante a madrugada, buscas de um dos dois em situações precárias no bar e intermediações de pedidos de desculpas repetiu-se constantemente. Ao findar a história, o taxista olhou para trás e lançou-me uma pergunta: - a senhora sabe com quem sou casado hoje? Eu não entendi a pergunta estranha e muito pessoal para uma breve corrida, mas respondi: -Não!
Ele estacionou o carro na porta da residência que estava hospedada, virou novamente em minha direção e retomou a narrativa. A história dos sujeitos apaixonados continuou por muito tempo e eu era o coadjuvante. Eu ouvia-os pacientemente, levava flores, chocolates e cartões para a mulher, até que ela jurou amor por mim. Eu, já muito apaixonado, correspondi e nos casamos.
Eu não havia percebido as lágrimas de tristeza nos seus olhos e na sua face, comentei: - Que história de amor intrigante! Ele desabou em prantos: - Hoje, ela pediu-me a separação. Reencontrou o antigo amor e apesar de terem vivido entre tapas e beijos, resolveram largar seus parceiros atuais para reatarem. O grande babaca fui eu. Entrei na história de intrometido e me dei mal. Odeio todas as mulheres. E a senhora, por favor, saia, pois faz parte desse gênero. Disse-me ele com muito rancor. Paguei a corrida e saí de mansinho, porque a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.



Nenhum comentário: