sexta-feira, 28 de março de 2014

LEVEZA POUCA É BOBAGEM

Fazer do limão, limonada é um desafio para viver uma vida mais leve em tempos em que o que se pede do homem contemporâneo é um mundo acelerado, um corre-corre frenético que dá a sensação de lutar, lutar e morrer na praia.
Embora o brasileiro tenha seu tempo próprio para começar o ano fora da data oficial (01 de janeiro), em 2014, macacos me abanem, esse cálculo alonga-se por até o oitavo mês do ano, já no segundo semestre. Afinal, estamos no “país tropical, abençoado por Deus” e além de samba e carnaval, a bola rola na vida do cidadão: a Copa que será sediada no país... E o país não está bonito. Entre problemas graves de economia, corrupção na política, Patatis e Patatás atuando nas plenárias nacionais, o brasileiro arrasta a bola entre IPVAs, IPTUs, dívidas do Natal e das férias; e ainda tem as baterias preparando os tambores, os sambistas acertando os passos da Escola de Samba... pena que a Educação brasileira tem o passo desacertado.
Em passos delirantes, barulhos e movimentos desastrosos, o exagero fecha os ouvidos dos homens, e na moda da aceleração constante, perdemos o nosso jeito de caminhar.
Comecei este texto falando de leveza, e como dizia o poeta Cazuza[1], “o tempo não para”, as piscinas estão cheias de ratos” e as “ideias não correspondem aos fatos". Então, caro leitor, convido-o a desacelerar com o poeta gaúcho Mário Quintana[2]: “E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguia, seguia, sempre em frente... E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas”.
É preciso cultivar os momentos em que os pensamentos voam para que a alma se vista de novas cores. O tempo é sagrado na existência humana.
Não me venha complicar a vida. Vida “leve não é vida fácil nem superficial. É vida simples” (Cortella[3], 2010). Vida simples é viver o Aqui e o Agora. Deixando o passado que nos traz memórias e, muitas vezes, sentimentos depressivos, e não correr para alcançar o futuro que nos faz ansiosos.
Viver o simples da vida é ter a sabedoria de mudar aquilo que pode, e o que não é da nossa conta, deixar o tempo dar respostas. E, com os pés fincados no chão, acreditar em si, nos sonhos, na vida, ao invés de procurar “felicidades”. Buscar a leveza, na medida do possível... mesmo em tempos de Copa, gols e samba, sem a fantasia da ilusão. Apenas ser quem se consegue ser. Apenas.



[1] CAZUZA. IN: CAZUZA. O Tempo não Para. Música do álbum homônimo, quarto álbum solo e último registro Ao Vivo do cantor. Foi gravado durante a turnê do disco Ideologia, em16 de outubro de 1988 no Canecão, Rio de Janeiro.
[2]QUINTANA, Mário. IN: Seiscentos e sessenta e seis.Poema publicado originalmente no livro Esconderijos do Tempo, Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 479.
[3]Sergio CORTELLA, Mário Sérgio. IN: FERREIRA, Leila.A arte de ser leve. Rio de Janeiro: Globo, 2010. 280 p.

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