Hoje, eu acordei com um
espírito diferente, com o ânimo renovado para comemorar o aniversário da cidade
onde resido. Mariana comemora 316 anos de história no coração das Minas Gerais.
O dia amanheceu cinzento e frio. Rezei para a Virgem do Carmo, padroeira da cidade,
rogando proteção ao Município.
Participodas comemorações
dos aniversários de Mariana desde a minha infância. Morei, durante anos, na Rua
Dom Silveiro, cresci e brinquei no largo que ostenta a Igreja São Francisco, a
Igreja Nossa Senhora do Carmo, a Câmara e um Pelourinho situado ao centro deste
belo cenário que é a Praça Minas Gerais. Lembro-me, perfeitamente, de como a
cidade era preparada para as festividades, de como as pessoas compravam roupas
novas e se arrumavam para a grande celebração.
Neste ano, eu e muitos
moradores caminhávamos em coro para comemorar o aniversário da cidade. Qual foi
o presente de grego que ganhamos no momento da grande festa? Cidadãos de
Mariana, que pagam os impostos e que movimentam a economia da cidade, foram
barrados na entrada do evento.
Como os anfitriões da festa
não podem compartilhar o banquete com os seus convidados?Ficamos parados, em pé
na ladeira, perplexos com o fato de só nos restarem as migalhas que caíam dos
pratos daqueles que saboreavam a ceia, daqueles que se achavam privilegiados
por terem sido selecionados para a festa.
Caro leitor, é indiscutível
a indignação de muitos que ficaram fora da festa.A maioria das pessoas que
foram barradas são cidadãs que constroem suas vidas,diariamente, nas ruas de
Mariana, trabalhando em prol da educação, da saúde, do comércio, da arte e da
cultura.
Recebi de um amigo uma
credencial para que pudesse apreciar a grande ceia. Eu, polidamente, recusei. Preferi
ficar com a população desconsolada por ter sido excluída do evento. Remeto-me a
música do grande poeta Cazuza: “Não me convidaram para esta festa pobre que os
homens armaram para me convencer(...)”.
Lamento pelo que aconteceu
na cidade onde fui criada, onde eu crio os meus filhos e onde eu sou educadora.
Mariana presenciou um episódio de grande desrespeito ao cidadão. Recordo-me da
fábula: A Festa no Céu. A narrativa conta a história de uma festa no céu
restrita aos animais que podiam voar. Os outros animais da floresta não puderam
comparecer, pois as festividades aconteceram fora do alcance desses animais.
Baseando-me nesta história
infantil, deixo em aberto a seguinte questão: Por que somente alguns puderam
participar da festa de aniversário de Mariana?
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes
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