Queridos amigos, pretendo deixar registrado nesse espaço, alguns textos e poemas, para apreciação daqueles que porventura queiram visitar esse Blog. Jacqueline Antunes
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Sombras da madrugada
Já é madrugada, as crianças dormiram, o bar da esquina fechou e o homem do roupão azul e charuto fechou a janela do seu apartamento. Fecho a cortina do meu quarto para que a luz da rua não me atrapalhe o sono.
Estou exausta! Durante o dia é a correria em meio ao barulho de sempre: campainha e telefone tocam juntos, num só acorde, crianças tagarelando, pratos, garfos, panela de pressão e lavadora de louças integram-se em uma apresentação; o concerto musical, ou melhor, concerto instrumental. Assim vai o dia, e o meu pensamento é um só: ficar a sós, em minha companhia, sem os ruídos. Eu comigo mesma.
Termino de fechar a cortina e deito-me.
Acompanho uma sombra no meu quarto. Contemplo-a interrogativa.
Eu conheço essa estatueta. A luz do meu quarto é só penumbra. Começo o diálogo com o mistério. À medida que vou falando de mim, da minha vida, sonhos, ela silenciosa movimenta-se timidamente.
A sombra sobe até o teto e lá permanece. Levanto-me, colocando os olhos naquela desconhecida e fico em pé no colchão.
Desesperada, luto por um ruído.
Calada, ela continua o trajeto.
Silêncio! A sombra encolhe e vai em direção à porta. Lá, para.
Faço perguntas descontínuas à desconhecida que invadiu a madrugada do meu quarto.
Que mundo desconhecido habita essa personagem?
Nesse instante, o que sei dela é que chegou ao meu quarto de forma sorrateira, movimentando-se como uma bailarina ágil, suave, harmônica. Equilibra, desequilibra, pula e brinca comigo, aliás, o tempo todo ela brinca. Ela é o mistério, o personagem desconhecido, o suspense; eu a personagem passiva que apenas olha.
Aquieto para ouvir sua respiração.
Nenhum som, tom, toque.
Percebo que conheço aquela personagem. O seu movimento plaina no ar. Naquele instante, levanto-me e vou até o espelho. Olho o meu rosto, minha pele, embora as marcas do tempo tenham poucas rugas, os meus olhos não são os mesmos. O brilho existe embora aquele da juventude não possa ser visto mais. Quero conferir melhor os traços que guardo hoje e acendo a luz. Volto ao espelho e olho a sombra.
Reconheço-me na sombra que reflete no espelho. A sombra então desaparece e fico ali, olhando-me, só, no espelho. Reconheço-me como mulher. A mulher que sou e da qual me aproprio nesse momento.
Jacqueline Antunes
Outono/2010
Estou exausta! Durante o dia é a correria em meio ao barulho de sempre: campainha e telefone tocam juntos, num só acorde, crianças tagarelando, pratos, garfos, panela de pressão e lavadora de louças integram-se em uma apresentação; o concerto musical, ou melhor, concerto instrumental. Assim vai o dia, e o meu pensamento é um só: ficar a sós, em minha companhia, sem os ruídos. Eu comigo mesma.
Termino de fechar a cortina e deito-me.
Acompanho uma sombra no meu quarto. Contemplo-a interrogativa.
Eu conheço essa estatueta. A luz do meu quarto é só penumbra. Começo o diálogo com o mistério. À medida que vou falando de mim, da minha vida, sonhos, ela silenciosa movimenta-se timidamente.
A sombra sobe até o teto e lá permanece. Levanto-me, colocando os olhos naquela desconhecida e fico em pé no colchão.
Desesperada, luto por um ruído.
Calada, ela continua o trajeto.
Silêncio! A sombra encolhe e vai em direção à porta. Lá, para.
Faço perguntas descontínuas à desconhecida que invadiu a madrugada do meu quarto.
Que mundo desconhecido habita essa personagem?
Nesse instante, o que sei dela é que chegou ao meu quarto de forma sorrateira, movimentando-se como uma bailarina ágil, suave, harmônica. Equilibra, desequilibra, pula e brinca comigo, aliás, o tempo todo ela brinca. Ela é o mistério, o personagem desconhecido, o suspense; eu a personagem passiva que apenas olha.
Aquieto para ouvir sua respiração.
Nenhum som, tom, toque.
Percebo que conheço aquela personagem. O seu movimento plaina no ar. Naquele instante, levanto-me e vou até o espelho. Olho o meu rosto, minha pele, embora as marcas do tempo tenham poucas rugas, os meus olhos não são os mesmos. O brilho existe embora aquele da juventude não possa ser visto mais. Quero conferir melhor os traços que guardo hoje e acendo a luz. Volto ao espelho e olho a sombra.
Reconheço-me na sombra que reflete no espelho. A sombra então desaparece e fico ali, olhando-me, só, no espelho. Reconheço-me como mulher. A mulher que sou e da qual me aproprio nesse momento.
Jacqueline Antunes
Outono/2010
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
PELOURINHO
Um anjo iluminou a praça
A luz iluminou as torres
As Torres
As TorresAs Torres
A lua iluminou o rosto da padroeira
Droeira
E ficou só o eco
Liberdade
Dade
E o anjo fez justiça
levando à cobiça
Cobiça
Biça ça
do
Rio Rio Rio
Ribeirão do Carmo
Jacqueline Antunes
A lua iluminou o rosto da padroeira
Droeira
E ficou só o eco
Liberdade
Dade
E o anjo fez justiça
levando à cobiça
Cobiça
Biça ça
do
Rio Rio Rio
Ribeirão do Carmo
Jacqueline Antunes
sábado, 14 de janeiro de 2012
Brilho da terra

O arraial dorme
No seio do Ribeirão
O Rio corre,
A menina acorda
Seus olhos brilham
Um brilho maior que o sol
Os garimpeiros trabalham
As janelas das casas já abertas
As meninas brincam na terra
Os homens descem a ladeira
A notícia espalha no ar
As montanhas cochicham
O Rio corre apressado
Levando a mensagem
Que os pássaros contaram
O Arraial virou Vila do Ribeirão do Carmo
A Virgem do Carmo sorri
Clama a São Francisco
Paz no universo do Ouro
Amor no coração da cobiça
Na vila é só movimento
Chegam damas
Negros com peitos nus
Exalando o suor do trabalho
A Menina dos olhos brilhantes
Só não sabia
Que o seu poder
Está no brilho do seu olhar
O Ouro desse arraial
Brilha agora na Vila do Carmo
O Rio continua correndo
O olhar da menina continua brilhando
Nas terras das Gerais.
Jacqueline Antunes
Esse poema conta a História do dia em que o Arraial do Carmo virou Vila Ribeirão do Carmo.
A Menina dos olhos de todos era o Ouro que encontravam no Rio, hoje Ribeirão do Carmo, cidade de Mariana, Minas Gerais.
No seio do Ribeirão
O Rio corre,
A menina acorda
Seus olhos brilham
Um brilho maior que o sol
Os garimpeiros trabalham
As janelas das casas já abertas
As meninas brincam na terra
Os homens descem a ladeira
A notícia espalha no ar
As montanhas cochicham
O Rio corre apressado
Levando a mensagem
Que os pássaros contaram
O Arraial virou Vila do Ribeirão do Carmo
A Virgem do Carmo sorri
Clama a São Francisco
Paz no universo do Ouro
Amor no coração da cobiça
Na vila é só movimento
Chegam damas
Negros com peitos nus
Exalando o suor do trabalho
A Menina dos olhos brilhantes
Só não sabia
Que o seu poder
Está no brilho do seu olhar
O Ouro desse arraial
Brilha agora na Vila do Carmo
O Rio continua correndo
O olhar da menina continua brilhando
Nas terras das Gerais.
Jacqueline Antunes
Esse poema conta a História do dia em que o Arraial do Carmo virou Vila Ribeirão do Carmo.
A Menina dos olhos de todos era o Ouro que encontravam no Rio, hoje Ribeirão do Carmo, cidade de Mariana, Minas Gerais.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa
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