Escrevo hoje, caro leitor, sobre
duas irmãs poderosas e vizinhas, que moram uma pertinho da outra. Elas são
diferentes, cada qual com suas características singulares, mas trazem do berço a
mesma fonte, uma história similar. Mariana e Ouro Preto nasceram da mesma
causa, foram descobertas por bandeirantes, homens que vieram de terras
longínquas para descobrir o ouro das Minas Gerais.
Descreverei cada uma delas, nesse curto espaço, em um pedaço medido de papel, o que é bem complicado,
pois cada uma tem sua história, seus segredos, sua magia e como é de praxe em
toda família, cada irmã segue o seu caminho.
Mariana foi a primeira Vila, primeira Capital,
primeira cidade projetada e sede do Bispado. A cidade é composta de um cenário
requintado com construções do barroco mineiro rodeadas pelas montanhas que
recortam a paisagem, onde a terra se aproxima do céu.
Tenho o costume de sair por Mariana,
cidade onde eu vivo, com o olhar de turista, que se enche de encanto a cada
canto da cidade.
Na Alfaiataria do Chiquinho, paro,
ouço-o tocar com saxofone a minha música. Ele olha-me calado e toca a Ave Maria.
Continuo a caminhada, passo pela Igreja da Sé e escuto o órgão ArpSchnitger. Saio, caminho pela Praça iluminada pelo clarão da lua e escuto os músicos,
que tocam um samba. Retorno para casa alimentada de cultura.
Mariana é uma cidade singela, repleta
de sacadas, de praças e de casarões. Pessoas de todos os cantos do mundo se
encontram neste espaço e comungam a cultura, a arte e a diversidade deste ponto
peculiar do país.
Ouro Preto, cidade onde nasci, é
imponente, é um museu a céu aberto, um templo da cultura mineira cheio de
riquezas construídas ao longo do tempo. A cidade é composta de ruelas
estreitas, cantos nos pés de moleques, por onde passamos tem festa, brinde e
música. A religiosidade é forte, os caminhos são estreitos nas ladeiras
íngremes e a fé permeia todos os pontos.
Ouro Preto me remete aos sonhos não
vividos. Lembro-me de Marília de Dirceu, na ponte, a esperar seu amado, Dirceu,
nas madrugadas frias de junho. Quando eu passo pela Ponte de Antônio Dias,
conhecida, também, por Ponte dos Suspiros ou Ponte da Marília, ouço as vozes da
amada de Dirceu, que ainda suplica pelo amado. Na data que antecede o dia dos
namorados, ficam mais profundos os clamores da musa.
Ouro Preto, berço da humanidade,
repleta de cantos, lamentos, histórias bem e mal contadas, como a Inconfidência
Mineira. A cidade recebe turistas, estudantes, que contemplam a vida, a arte e
a cultura.Tudo é jazz, é samba, é arte barroca e arte mineira.
Deixo aqui, um pouco da vida e da
história de cada irmã. Cidades recostadas que revivem o passado e vivem o
presente, no recanto de Minas Gerais.
Apenas, pincelei um pouco da história
das cidades de Ouro Preto e Mariana. Eu não me atrevo ir tão fundo na
intimidade destas duas preciosidades. Minha mão não ousa continuar com este
cochicho, finalizarei com algumas palavras de Guimarães Rosa:
“(...) Minas geratriz, a do ouro, que evoca e
informa, e que lhe tinge o nome; a primeira a povoar-se e a ter nacional e
universal presença, surgida dos arraiais de acampar dos bandeirantes e dos
arruados de fixação do reinol, em capitania e província que, de golpe, no
Setecentos, se proveu de gente vinda em multidão de todas as regiões vivas do
país, mas que, por conta do ouro e dos diamantes, por prolongado tempo se ligou
diretamente à Metrópole de além-mar, como que através de especial tubuladura,
fluindo apartada do Brasil restante. [...]”Guimarães Rosa – Ai está Minas: a
mineiridade.
Jaqueline Antunes
Pedagoga e professora da
Rede Pública Estadual de
Mariana.

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