Neste sábado de chuva fina,
saí com a minha família para almoçar em um canto sossegado. Escolhemos o
Restaurante Sinhá Olímpia em Passagem de Mariana, que, desde o ano de 1981,
serve uma deliciosa comida mineira. Quando chegamos, deparei-me com um quadro
de uma figura folclórica da região: Sinhá Olímpia. Ela circulava pelas ruas de
Ouro Preto nos anos 70 e foi uma das primeiras hippies do Brasil. Contam variadas versões da sua história de vida.
Ela nasceu em Santa Rita, distrito
de Mariana, sua família era rica. Apaixonou-se por um farmacêutico pobre e seus
familiares não consentiram com o namoro. Dizem que Sinhá Olímpia veio morar em
Ouro Preto e acabou perdendo sua lucidez. Ela perambulava pelas ruas, contando
histórias irreais sobre a sua vida. Falava como se vivesse em épocas passadas, prendia
as pessoas com suas narrativas sobre grandes momentos da história do Brasil esobre
personagens ilustres.
Sinhá Olímpia apresentava
características de alguém que fora bem educada, falava um português claro e
cantava com uma bela voz pelas ladeiras de Ouro Preto. Fiquei um tempo olhando
para aquele quadro e para a imagem daquela mulher, que tive a chance de
conhecer na minha infância e que agora voltava a minha memória.Vestia um vestido
e um casaco vermelhos, referenciando o clima frio da cidade, um chapéu grande
com flores no alto e um cajado enfeitado com papéis e flores.
Mulher de finos tratos,
"louca mansa", que só demonstrava agressividade, quando as crianças perturbavam-na
com insultos. Os seus olhos pintados, naquele quadro, realçavam não a loucura,
mas a dor de um amor não correspondido. Um olhar perdido no tempo, uma história
de desilusões. Sinhá Olímpia saiu de casa, abriu mão de tudo para viver um o
amor proibido e foi abandonada por seu amado.
Personagem de visibilidade
em Ouro Preto, ela foi cantada em versos e prosas, foi tema de filmes e foi
homenageada pela Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro, com o samba
enredo "E Deu a Louca no Barroco". Recebeu a visita de Rita Lee,
Milton Nascimento, Juscelino Kubitschek, Vinícius de Moraes, dentre outros.
Com seu cigarro na boca
tragava as cinzas da má sorte, tentava ignorar a dor trazida pelo amor.Sua
figura marcou presença nas ruas de pés-de-moleque de Ouro Preto. Ela abriu mão
da vida real para viver da loucura, para viver, através das suas histórias,
momentos que nunca presenciou fisicamente, mas que faziam parte do seu
faz-de-conta. Sinhá Olímpia, mulher feminina com a alma rebelde, que entre cores,
papéis e flores, enlouqueceu por amor, arrumou um jeitinho peculiar para fugir
da sua dura realidade.
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
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