A vida é frenética na
sociedade pós-moderna. Corremos para o trabalho, para o salão de beleza, para o
banco e durante o percurso costumamos atropelar os clientes que estão na fila
para chegar, logo, a nossa vez. Muitos correm até para a morte.
Falarei, um pouco, sobre o
silêncio, a poesia e a literatura. Relatarei algo que me aconteceu em um
consultório médico. Esperava a minha vez para uma consulta e aproveitei a pausa
para terminar um livro de crônicas – Pés
no chão da escritora que reside em Mariana, Andreia Donadon
Leal – e sentir o silêncio que aquele ambiente exalava no final da tarde de uma
segunda-feira.
Neste horário, geralmente, eu, como muitos
trabalhadores brasileiros, estaria numa correria desastrosa para chegar em
casa. O único ônibus que circula na cidade passa abarrotado e a ida para o meu
lugar de descanso é muito desgastante. Costumo chegar em casa e continuar a
lida – corro para dar banho no meu filho,olho sua agenda de dever de casa,
preparo o jantar, confiro se está tudo certo para a feira do dia seguinte, dou
um olhar para o meu marido e checo os meus e-mails.
Ufa! Que alívio estar ali, naquela sala
confortável, viajando nas histórias de um livro. Eu lia e parava, por alguns
momentos, para sorrir como um leitor que se apresenta como cúmplice da
história. Ria do enredo que ecoava em minha mente como vozes, como se saíssem
do meu espelho feminino, pois a autora escrevia sobre o que vivencio e critico.
Em alguns momentos, eu me sentia como a personagem e em outros, como a escritora.
A sala de espera é um lugar que gosto. Eu
não tenho gozo pela doença, pelo contrário, mas aquela espera era uma pausa na
correria do dia a dia. Lembrar-me de que
posso ter momentos de tranquilidade e de como é bom parar para sentir o prazer
do silêncio e da leitura, já que, sempre, carrego comigo um livro na bolsa.
Estava indo tudo muito bem, quando uma mulher
que, também, esperava por sua consulta começou a reclamar da demora do médico e
imaginando que eu iria concordar com ela me cutucou. Evitando ser deselegante,
eu sorri e continuei a minha leitura. Passados alguns instantes, quando pensava
que a vida era pleno silêncio e poesia, ela recomeça o seu discurso lamentoso
sobre como é corrida a vida de uma dona de casa.
Sei de cor e salteado este
discurso e naquele momento estava destinada a cuidar da minha saúde física,
mental e emocional, afinal, estava na companhia de um livro e curtindo o grande
prazer que a leitura me proporcionava. Olhei para aquela mulher com cara de
nada! Já viram cara de nada? Eu não discordo com você, eu não concordo com você
e eu não estou nem ligando para o seu papo. Fim.
Não, não era o final, aquela moça não
queria só falar da sua vida corrida. Ela queria ter alguém como cúmplice, ela
esbravejou toda a sua história, sua insatisfação e me escolheu como ouvinte.
Imagine se eu queria ouvir, naquela hora da noite, uma paciente a beira de um
ataque de nervos. Levantei-me, peguei minha bolsa, meu livro, olhei para ela,
sorri e saí.
Fui para antessala, pois afinal havia
chegado a hora da minha consulta e não havia me dado conta disso. Quando saí,
ela estava pronta para entrar. Sorrimos uma para outra. Fiquei pensando: será
que ela entendeu meu recado e colocou-se a sorrir e relaxar para prosseguir sua
noite de forma mais leve e sem tanto estresse.
Ao ler um livro, penso que sou um paciente
conversando intimamente com o meu analista. Fica aqui uma dica para aqueles que
na vida corrida fazem cenas de mau humor e falta de paciência. A receita é simples! Carregue sempre um livro
na bolsa e saia em boa companhia, esse pode ser um remédio infalível contra o
tédio e o estresse.
Jacqueline Antunes -
Pedagoga e professora.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 22/08/2012
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 22/08/2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário