Domingo, o céu sem nenhuma
nuvem e o sol aquecendo nossa alma na manhã de inverno. Ouro Preto, minha
cidade natal, apresenta uma paisagem recortada pelo verde musgo das montanhas
que vai de encontro ao azul do céu de agosto. A cidade guarda mistérios de
amores, poder, tramas, traições e mortes. Não conhecemos toda a sua história,
parte dela está velada por contradições e segredos; mas deixemos as questões
históricas de lado e voltemos à nossa conversa.
Eu estava sentada no Adro da
Igreja Nossa Senhora da Conceição, que fica no bairro Antônio Dias, onde havia
marcado um encontro com a arte e a música afinada do Grupo Candongueiros.O
grupo apresentava um requintado repertório – Caetano Veloso, Chico Buarque,
Gonzaguinha, Beth Carvalho, Cartola, dentre outros.
Vão chegando conhecidos e
amigos e se formando as rodas de samba e bate-papo.Eu levanto-me da escadaria e
começo a dançar quando alguém me faz uma pergunta: “Você consegue dançar sem
consumir bebida alcóolica?”.
Costumo dizer que dançar é
como exorcizar todo o cansaço, é renovar as forças para a labuta que vem pela
frente. Eu não estava bebendo. Gosto de vinho e cerveja, mas consumir bebida
alcoólica não é um hábito. Parei, por um momento, e observei que eram poucas as
pessoas que não estavam com um copo na mão, salvas as crianças.
Caro leitor, é comum o
estranhamento de muitos ao se depararem comigo dançando descontraidamente de
cara limpa. Se eu vou para o trabalho, educo meus filhos e ando pelas ruas de cara limpa, então, naturalmente, posso dançar de cara
limpa. Eu não acredito que, para se divertir, ir para a noitada e participar de
um cortejo, seja necessário usar subterfúgios.
Não estou fazendo um
discurso careta e não sou a dona da verdade, como canta o poeta, Caetano
Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é (...)”. Muitos só
conseguem se descontrair quando consomem bebida alcóolica ou quando fazem uso
do ópio para aliviar o constrangimento.
A vida é um carnaval de arlequins
e de colombinas, de amores e de ódios, de acertos e de desacertos e neste
compasso e descompasso, idas e voltas, vida e morte, nós vamos tecendo as
nossas histórias. Vamos levantar poeira da hipocrisia, da ganancia, do poder
autoritário e corruptível, da educação desmoralizada e da saúde precária para criar,
sem muito blá, blá, blá, um novo bloco da segurança, da confiança e da
democracia. Devemos encarar as
desventuras da vida com mais força, garra e fé para construirmos uma nova
história.
Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal o Tempo dos Inconfidentes - 15/08/2012
Texto publicado no Jornal o Tempo dos Inconfidentes - 15/08/2012

Nenhum comentário:
Postar um comentário