sábado, 11 de agosto de 2012

MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA




Por Cristiano Vilas Boas (Álbuns)
Lembro-me com saudade das pessoas que fizeram parte da minha infância em Mariana.Amália Layon, irmã do pintor e entalhador Elias Layon; Professor Waldemar Moura Santos; Efigênia Miguel,filha dolibanês José Miguel, professora primária; Mestre Vicente; vovó Bela e tiaLica, mulheres admiráveis, que cuidavam da casa da Sopa; Padre Avelar que subia e descia as ladeiras da cidade, ora em direção ao antigo Colégio que levava seu nome, ora para o Colégio Providência, com a missão de ouvir os seus fiéis no confessionário. Uma figura marcanteem minhamemória, que merece destaque nesta nossa conversa, é o corredor, Galo Véio.
Eu morava na casa número 6 na Rua Dom Silvério conhecida como Rua Nova pelos moradores da região. O sol saía timidamente nas primeiras horas da manhã, quandoGalo Véio aparecia. Um sujeito franzino queaparentava ter um pouco mais de 50 anos e vestiaum short ralo e uma camiseta fina demais para o frio desta terra.
Sujeito humilde que entrava pelo corredor comprido e de lajotas vermelhas da minha casa, com a boca pronta para tomar um café com pão.Reclamava da dor que sentia no estomago e que o incomodou por muito tempo de sua vida.Suspirava daqui, reclamava acolá, pegava a enxada e começava a capinar o terreiro que chegava até a ribanceira da Rua do Catete.
Eu, menina de pés descalços, ficava no quintal, debaixo do pé de goiaba, espiando aquele homem em seu labor. Ele morou em Mariana por muitos anos, capinou os quintais dos moradores da cidade durante muito tempo e marcou seus passos na vida diária desta terra.  Na Sexta- Feira Santa, Galo Véio marcava presença, atravessava as ruas batendo uma matraca. Mesmo com a saúde debilitada, correu pela cidade que morava, pelas avenidas e pelas estradas do Brasil.
Um corredor com olhos pedintes de pão, pura simplicidade e poucas palavras. Ele nos deixou a marca do atletismo e com firmeza participou, várias vezes,da Corrida de São Silvestre. Um atleta determinado e obstinado que, sempre, completava o percurso da maratona.
Lembro-me bem das poucas palavras que pronunciava, a cada pão nosso de cada dia que ele recebia nas casas marianenses, onde trabalhava, proferia um fervoroso Deus lhe ajude.
 Estive conversando com o Professor Décio Gabriel que era seu amigo e incentivador, que o considera exemplo de humildade, resistência e fé.A história do esporte de Mariana não existe sem a participação de Jaime Estevão Gonçalves, conhecido como Galo Véio, atleta e obreiro.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 08/08/2012

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

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