Um casal de moradores de rua encontrou vinte mil reais em
dinheiro e notas fiscais, que haviam sido furtados em um restaurante em São
Paulo. Eles procuraram a polícia e entregaram a quantia ao proprietário. A ação
inesperada foi noticiada em jornais, revistas e nas redes sociais. Foram
aclamados como heróis, num país onde a ética não tem sido a prática cotidiana.
Pessoas estigmatizadas diariamente, mendigos, que não têm
escolaridade, vivem sem lenço e sem documento, foram capazes de entregar ao
dono quantia considerável, que poderia livrá-los, por um tempo, da vida
sub-humana em que vivem.
A sociedade pós-moderna mostra a violência, escancarada por toda
parte, como algo rotineiro. Atitudes embasadas no respeito, na ética e na
moral, que deveriam ser corriqueiras, são tratadas como extraordinárias, por
não serem comuns no dia a dia.
Ao refletir sobre o fato lembrei de uma cena acontecida em
junho, na praia de Copacabana. Uma vendedora ambulante vendia óculos de Sol,
quando um guarda chegou e apreendeu toda a mercadoria. Momentos depois,
fui em direção ao calçadão e reconheci o policial, de óculos novos, a
distribuir a mercadoria apreendida aos colegas fardados, pessoas que deveriam
cuidar da segurança dos cidadãos
Estamos diante de ações que ferem a ética o tempo todo. Não
estou fazendo generalizações, nem todo guarda agiria assim, e nem todo morador
de rua devolveria o dinheiro. A questão não é quem, mas a frequência com que
presenciamos atos negligentes e atos nobres.
A violência bate a nossa porta desde o amanhecer e corre
madrugada adentro. Ela está em toda parte, desde os furtos e assassinatos até
as atitudes, tais como, furar filas, encontrar aparelhos celulares e se
apropriar deles, vandalizar patrimônios públicos e privados, dentre outras
tantas ações corruptíveis.
Estamos lidando diariamente com todo tipo de vilão. Temos que
ficar atentos para nos proteger dos lobos, mas não podemos esquecer que muitos
vestem pele de cordeiro.
Será que o melhor a fazer é nos fecharmos em casas com cercas
elétricas, alarmes, etc.? Só sair de casa de carro blindado? Será que deveremos
ser assolados pelo medo de sermos saqueados a todo momento?
Aclamo de pé o casal que teve coragem de devolver o dinheiro que
não lhes pertencia. Eles merecem louvores por um ato tão honrado e tão incomum
na nossa vida cotidiana. Um deles relatou que estava, apenas, seguindo o que a
mãe lhe ensinou: devolver o que é do outro, não ficar com o que não é seu. Se
todas as mães se preocupassem em dar bons exemplos não haveria tanta
agressividade.
Em um mundo onde o capital impera, nós, pais, precisamos dizer
aos nossos filhos que nem tudo o que eles querem, poderão ter. Sem ações
educativas não formaremos cidadãos e, sim, tiranos. Muitos que desfilam pelas
ruas vestidos de mocinhos, na verdade, usam o poder equivocadamente, têm
atitudes imorais, são hipócritas e suas atitudes contradizem a imagem que
passam para a sociedade.
Não devemos usar o fatalismo para justificar a nossa apatia
diante das adversidades. Resta-nos uma esperança. A educação é a luz no fim do
túnel. Como cidadãos, devemos lutar para que ela possa atender com qualidade a
todos, para que tenhamos melhores condições de vida. É um trabalho que exigirá
fé, perseverança e iniciativa. Mãos à obra!
Jaqueline Antunes
Professora e Pedagoga
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes dia 01/08/2012
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