quarta-feira, 1 de agosto de 2012

EDUCAR COM A VIDA



Um casal de moradores de rua encontrou vinte mil reais em dinheiro e notas fiscais, que haviam sido furtados em um restaurante em São Paulo. Eles procuraram a polícia e entregaram a quantia ao proprietário. A ação inesperada foi noticiada em jornais, revistas e nas redes sociais. Foram aclamados como heróis, num país onde a ética não tem sido a prática cotidiana.
 Pessoas estigmatizadas diariamente, mendigos, que não têm escolaridade, vivem sem lenço e sem documento, foram capazes de entregar ao dono quantia considerável, que poderia livrá-los, por um tempo, da vida sub-humana em que vivem.
A sociedade pós-moderna mostra a violência, escancarada por toda parte, como algo rotineiro.  Atitudes embasadas no respeito, na ética e na moral, que deveriam ser corriqueiras, são tratadas como extraordinárias, por não serem comuns no dia a dia.
 Ao refletir sobre o fato lembrei de uma cena acontecida em junho, na praia de Copacabana. Uma vendedora ambulante vendia óculos de Sol, quando um guarda chegou e apreendeu toda a mercadoria.  Momentos depois, fui em direção ao calçadão e reconheci o policial, de óculos novos, a distribuir a mercadoria apreendida aos colegas fardados, pessoas que deveriam cuidar da segurança dos cidadãos
Estamos diante de ações que ferem a ética o tempo todo. Não estou fazendo generalizações, nem todo guarda agiria assim, e nem todo morador de rua devolveria o dinheiro. A questão não é quem, mas a frequência com que presenciamos atos negligentes e atos nobres.
A violência bate a nossa porta desde o amanhecer e corre madrugada adentro. Ela está em toda parte, desde os furtos e assassinatos até as atitudes, tais como, furar filas, encontrar aparelhos celulares e se apropriar deles, vandalizar patrimônios públicos e privados, dentre outras tantas ações corruptíveis.
Estamos lidando diariamente com todo tipo de vilão. Temos que ficar atentos para nos proteger dos lobos, mas não podemos esquecer que muitos vestem pele de cordeiro.
Será que o melhor a fazer é nos fecharmos em casas com cercas elétricas, alarmes, etc.? Só sair de casa de carro blindado? Será que deveremos ser assolados pelo medo de sermos saqueados a todo momento?
Aclamo de pé o casal que teve coragem de devolver o dinheiro que não lhes pertencia. Eles merecem louvores por um ato tão honrado e tão incomum na nossa vida cotidiana. Um deles relatou que estava, apenas, seguindo o que a mãe lhe ensinou: devolver o que é do outro, não ficar com o que não é seu. Se todas as mães se preocupassem em dar bons exemplos não haveria tanta agressividade.
Em um mundo onde o capital impera, nós, pais, precisamos dizer aos nossos filhos que nem tudo o que eles querem, poderão ter. Sem ações educativas não formaremos cidadãos e, sim, tiranos. Muitos que desfilam pelas ruas vestidos de mocinhos, na verdade, usam o poder equivocadamente, têm atitudes imorais, são hipócritas e suas atitudes contradizem a imagem que passam para a sociedade.
Não devemos usar o fatalismo para justificar a nossa apatia diante das adversidades. Resta-nos uma esperança. A educação é a luz no fim do túnel. Como cidadãos, devemos lutar para que ela possa atender com qualidade a todos, para que tenhamos melhores condições de vida. É um trabalho que exigirá fé, perseverança e iniciativa. Mãos à obra!

Jaqueline Antunes
Professora e Pedagoga

Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes dia 01/08/2012

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