Em meio a uma brincadeira na
praça, ouço alguém dizer a uma criança: – Você não pode correr sozinha por aí,
porque o homem do saco vai lhe pegar.
O medo nos acompanha desde a
mais tenra idade, a literatura infantil nos mostra, através dos seus enredos,
que podemos superá-lo com coragem e determinação. As histórias colaboram para
compreendermos que a vida é uma luta contínua do bem e do mal e que, como na
maioria desses clássicos infantis, é possível superar todos os inimigos e percalços
que enfrentamos na caminhada diária.
Contar e ouvir histórias
infantis são um ato prazeroso, pois alimenta a vida interior das pessoas,
fazendo com que a fantasia promova a esperança, minimizando questões que afligem
o homem no mais íntimo do seu ser. Sentir medo tem seu lado saudável, a espécie
humana não teria sobrevivido aos predadores e aos perigos sem ele. O medo é um
mecanismo de alerta que nos fortalece, estabelecendo limites e desenvolvendo
mecanismos de defesa.
Será que o medo é imposto?
Quando a mãe diz ao filho que se ele “pecar” o homem do saco vem para levá-lo,
pode ser considerado um medo “saudável”? Será que o homem do saco não
representaria Deus e o saco representaria o inferno? Na história das civilizações
existem marcas desse medo, reporto-me aos tempos da Idade Média, quando os homens
da igreja exaltavam os princípios cristãos e a necessidade de estarem preparadas
para o Juízo Final. O importante para o homem medieval era morrer sem pecado,
porque só assim ele iria para o paraíso sem medo, com a alma pura. Os temores
pelos fenômenos desconhecidos e incontroláveis eram amenizados pela fé.
Como o homem se apresenta no
mundo hoje em relação aos seus medos? Será que o medo não está tomando proporções
inadequadas? Somos dotados de humanidade, não somos seres
perfeitos, pois cometemos erros e acertos, temos dúvidas e, muitas vezes, somos
impedidos de prosseguir pelos nossos temores. Que o homem do saco, que pega a
criança para fazer mingau, não ganhe força em proporções descabidas. Que
tenhamos coragem e perseverança para enfrentarmos as dificuldades e lutarmos
pelos nossos sonhos, para vivermos os dois lados da moeda, a dualidade da vida:
o bem e o mal. Eu agradeço aos céus o humano que habita em mim, pois a luz só
brilha diante da escuridão.
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 20/22/2012

Um comentário:
Sentir medo é mesmo saudável! É o que controla os nossos limites!
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