sábado, 18 de agosto de 2012

CARA LIMPA



Domingo, o céu sem nenhuma nuvem e o sol aquecendo nossa alma na manhã de inverno. Ouro Preto, minha cidade natal, apresenta uma paisagem recortada pelo verde musgo das montanhas que vai de encontro ao azul do céu de agosto. A cidade guarda mistérios de amores, poder, tramas, traições e mortes. Não conhecemos toda a sua história, parte dela está velada por contradições e segredos; mas deixemos as questões históricas de lado e voltemos à nossa conversa.
Eu estava sentada no Adro da Igreja Nossa Senhora da Conceição, que fica no bairro Antônio Dias, onde havia marcado um encontro com a arte e a música afinada do Grupo Candongueiros.O grupo apresentava um requintado repertório – Caetano Veloso, Chico Buarque, Gonzaguinha, Beth Carvalho, Cartola, dentre outros.
Vão chegando conhecidos e amigos e se formando as rodas de samba e bate-papo.Eu levanto-me da escadaria e começo a dançar quando alguém me faz uma pergunta: “Você consegue dançar sem consumir bebida alcóolica?”.
Costumo dizer que dançar é como exorcizar todo o cansaço, é renovar as forças para a labuta que vem pela frente. Eu não estava bebendo. Gosto de vinho e cerveja, mas consumir bebida alcoólica não é um hábito. Parei, por um momento, e observei que eram poucas as pessoas que não estavam com um copo na mão, salvas as crianças.
Caro leitor, é comum o estranhamento de muitos ao se depararem comigo dançando descontraidamente de cara limpa. Se eu vou para o trabalho, educo meus filhos e ando pelas ruas de cara limpa, então, naturalmente, posso dançar de cara limpa. Eu não acredito que, para se divertir, ir para a noitada e participar de um cortejo, seja necessário usar subterfúgios.
Não estou fazendo um discurso careta e não sou a dona da verdade, como canta o poeta, Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é (...)”. Muitos só conseguem se descontrair quando consomem bebida alcóolica ou quando fazem uso do ópio para aliviar o constrangimento.
A vida é um carnaval de arlequins e de colombinas, de amores e de ódios, de acertos e de desacertos e neste compasso e descompasso, idas e voltas, vida e morte, nós vamos tecendo as nossas histórias. Vamos levantar poeira da hipocrisia, da ganancia, do poder autoritário e corruptível, da educação desmoralizada e da saúde precária para criar, sem muito blá, blá, blá, um novo bloco da segurança, da confiança e da democracia.  Devemos encarar as desventuras da vida com mais força, garra e fé para construirmos uma nova história.

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal o Tempo dos Inconfidentes - 15/08/2012

sábado, 11 de agosto de 2012

MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA




Por Cristiano Vilas Boas (Álbuns)
Lembro-me com saudade das pessoas que fizeram parte da minha infância em Mariana.Amália Layon, irmã do pintor e entalhador Elias Layon; Professor Waldemar Moura Santos; Efigênia Miguel,filha dolibanês José Miguel, professora primária; Mestre Vicente; vovó Bela e tiaLica, mulheres admiráveis, que cuidavam da casa da Sopa; Padre Avelar que subia e descia as ladeiras da cidade, ora em direção ao antigo Colégio que levava seu nome, ora para o Colégio Providência, com a missão de ouvir os seus fiéis no confessionário. Uma figura marcanteem minhamemória, que merece destaque nesta nossa conversa, é o corredor, Galo Véio.
Eu morava na casa número 6 na Rua Dom Silvério conhecida como Rua Nova pelos moradores da região. O sol saía timidamente nas primeiras horas da manhã, quandoGalo Véio aparecia. Um sujeito franzino queaparentava ter um pouco mais de 50 anos e vestiaum short ralo e uma camiseta fina demais para o frio desta terra.
Sujeito humilde que entrava pelo corredor comprido e de lajotas vermelhas da minha casa, com a boca pronta para tomar um café com pão.Reclamava da dor que sentia no estomago e que o incomodou por muito tempo de sua vida.Suspirava daqui, reclamava acolá, pegava a enxada e começava a capinar o terreiro que chegava até a ribanceira da Rua do Catete.
Eu, menina de pés descalços, ficava no quintal, debaixo do pé de goiaba, espiando aquele homem em seu labor. Ele morou em Mariana por muitos anos, capinou os quintais dos moradores da cidade durante muito tempo e marcou seus passos na vida diária desta terra.  Na Sexta- Feira Santa, Galo Véio marcava presença, atravessava as ruas batendo uma matraca. Mesmo com a saúde debilitada, correu pela cidade que morava, pelas avenidas e pelas estradas do Brasil.
Um corredor com olhos pedintes de pão, pura simplicidade e poucas palavras. Ele nos deixou a marca do atletismo e com firmeza participou, várias vezes,da Corrida de São Silvestre. Um atleta determinado e obstinado que, sempre, completava o percurso da maratona.
Lembro-me bem das poucas palavras que pronunciava, a cada pão nosso de cada dia que ele recebia nas casas marianenses, onde trabalhava, proferia um fervoroso Deus lhe ajude.
 Estive conversando com o Professor Décio Gabriel que era seu amigo e incentivador, que o considera exemplo de humildade, resistência e fé.A história do esporte de Mariana não existe sem a participação de Jaime Estevão Gonçalves, conhecido como Galo Véio, atleta e obreiro.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 08/08/2012

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

EDUCAR COM A VIDA



Um casal de moradores de rua encontrou vinte mil reais em dinheiro e notas fiscais, que haviam sido furtados em um restaurante em São Paulo. Eles procuraram a polícia e entregaram a quantia ao proprietário. A ação inesperada foi noticiada em jornais, revistas e nas redes sociais. Foram aclamados como heróis, num país onde a ética não tem sido a prática cotidiana.
 Pessoas estigmatizadas diariamente, mendigos, que não têm escolaridade, vivem sem lenço e sem documento, foram capazes de entregar ao dono quantia considerável, que poderia livrá-los, por um tempo, da vida sub-humana em que vivem.
A sociedade pós-moderna mostra a violência, escancarada por toda parte, como algo rotineiro.  Atitudes embasadas no respeito, na ética e na moral, que deveriam ser corriqueiras, são tratadas como extraordinárias, por não serem comuns no dia a dia.
 Ao refletir sobre o fato lembrei de uma cena acontecida em junho, na praia de Copacabana. Uma vendedora ambulante vendia óculos de Sol, quando um guarda chegou e apreendeu toda a mercadoria.  Momentos depois, fui em direção ao calçadão e reconheci o policial, de óculos novos, a distribuir a mercadoria apreendida aos colegas fardados, pessoas que deveriam cuidar da segurança dos cidadãos
Estamos diante de ações que ferem a ética o tempo todo. Não estou fazendo generalizações, nem todo guarda agiria assim, e nem todo morador de rua devolveria o dinheiro. A questão não é quem, mas a frequência com que presenciamos atos negligentes e atos nobres.
A violência bate a nossa porta desde o amanhecer e corre madrugada adentro. Ela está em toda parte, desde os furtos e assassinatos até as atitudes, tais como, furar filas, encontrar aparelhos celulares e se apropriar deles, vandalizar patrimônios públicos e privados, dentre outras tantas ações corruptíveis.
Estamos lidando diariamente com todo tipo de vilão. Temos que ficar atentos para nos proteger dos lobos, mas não podemos esquecer que muitos vestem pele de cordeiro.
Será que o melhor a fazer é nos fecharmos em casas com cercas elétricas, alarmes, etc.? Só sair de casa de carro blindado? Será que deveremos ser assolados pelo medo de sermos saqueados a todo momento?
Aclamo de pé o casal que teve coragem de devolver o dinheiro que não lhes pertencia. Eles merecem louvores por um ato tão honrado e tão incomum na nossa vida cotidiana. Um deles relatou que estava, apenas, seguindo o que a mãe lhe ensinou: devolver o que é do outro, não ficar com o que não é seu. Se todas as mães se preocupassem em dar bons exemplos não haveria tanta agressividade.
Em um mundo onde o capital impera, nós, pais, precisamos dizer aos nossos filhos que nem tudo o que eles querem, poderão ter. Sem ações educativas não formaremos cidadãos e, sim, tiranos. Muitos que desfilam pelas ruas vestidos de mocinhos, na verdade, usam o poder equivocadamente, têm atitudes imorais, são hipócritas e suas atitudes contradizem a imagem que passam para a sociedade.
Não devemos usar o fatalismo para justificar a nossa apatia diante das adversidades. Resta-nos uma esperança. A educação é a luz no fim do túnel. Como cidadãos, devemos lutar para que ela possa atender com qualidade a todos, para que tenhamos melhores condições de vida. É um trabalho que exigirá fé, perseverança e iniciativa. Mãos à obra!

Jaqueline Antunes
Professora e Pedagoga

Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes dia 01/08/2012

domingo, 29 de julho de 2012

E AGORA, CIDADÃO ELEITOR?


Levei uma turma de alunos para fazer um passeio pelas ruas, museus e praças, com o objetivo de apreciarmos o cenário artístico e cultural de Mariana. Estudamos um pouco sobre a arte do escultor Aleijadinho e dos demais artistas que contribuíram para a história da cidade, fizemos um panorama do passado até a contemporaneidade.
 As crianças ficaram encantadas por trabalharmos os conhecimentos através de uma aula in loco. Uma atividade que possibilitou aos alunos o desenvolvimento de um olhar crítico diante da realidade em que vivem. Durante o percurso os alunos ressaltaram a necessidade de se preservar o casario e as praças. Eles perceberam, em diversos pontos, o descaso em relação à preservação do conjunto arquitetônico da cidade.
Findadas as atividades, voltei para minha casa e comecei a pensar no estado de degradação do patrimônio de Mariana: casarões correndo risco de desabarem, igrejas repletas de rachaduras, monumentos destruídos por vândalos, dentre outros tantos problemas.
Caro leitor, não podemos mais fugir de uma questão tão importante no nosso cotidiano. Precisamos, com astúcia, observar as ideologias e ações de todos os candidatos que fazem política na cidade. Analisar cada candidato, ponderando seu histórico de vida pública, confirmando sua legitimidade, sua ética e sua moral.
 Passo anos a fio, ouvindo as críticas dos sujeitos nas ruas, no trabalho, nas praças e as suas insatisfações em relação aos que estão no poder público. O ano eleitoral é o momento de modificar a situação através do voto consciente. Ou será que vou continuar a ouvir a lamúria eterna de que não temos o governo que merecemos?
Devemos nos questionar: O que vamos fazer neste importante momento em que as eleições e os políticos batem em nossas portas? Onde ficam as nossas insatisfações com os candidatos que caminham pela vida pública?
Nas urnas, o oprimido, o insatisfeito e o injustiçado têm voz e poder para reverter a situação da educação desvalorizada, da saúde precária, dos monumentos urbanos depredados e que não são restaurados.
E agora, caro eleitor? O que fará com seu voto?
No período eleitoral, precisamos de um pouco de esclarecimento, de uma dose de consciência política e de uma boa pitada de compromisso, só assim, contribuiremos para a realização de uma prática de paz e bem-estar na cidade de Mariana. O futuro da cidade é de responsabilidade de cada um de nós, eleitores. Espero que este ano seja o tempo das transformações para que, quando eu voltar a fazer um passeio cultural com as crianças, elas possam fotografar uma nova realidade. Oxalá!

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

Publicado Jornal - O Tempo dos Inconfidentes 26-07-2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

Cortejo com canções e poemas sobre Liberdade: LIBERTAS QUE SERÁ TAMEM

Cortejo coordenado pela professora Hebe Maria Rola Santos com participação da professora Jacqueline Antunes, declamando poemas.












Programação do Festival de Inverno de Mariana e Ouro Preto no ultimo domingo, saindo da Casa de Cultura até a praça Gomes Freire.





Fotos de Lídia Ferreira



quarta-feira, 18 de julho de 2012

O BANQUETE FOI OFERECIDO PARA POUCOS



Hoje, eu acordei com um espírito diferente, com o ânimo renovado para comemorar o aniversário da cidade onde resido. Mariana comemora 316 anos de história no coração das Minas Gerais. O dia amanheceu cinzento e frio. Rezei para a Virgem do Carmo, padroeira da cidade, rogando proteção ao Município.
Participodas comemorações dos aniversários de Mariana desde a minha infância. Morei, durante anos, na Rua Dom Silveiro, cresci e brinquei no largo que ostenta a Igreja São Francisco, a Igreja Nossa Senhora do Carmo, a Câmara e um Pelourinho situado ao centro deste belo cenário que é a Praça Minas Gerais. Lembro-me, perfeitamente, de como a cidade era preparada para as festividades, de como as pessoas compravam roupas novas e se arrumavam para a grande celebração.
Neste ano, eu e muitos moradores caminhávamos em coro para comemorar o aniversário da cidade. Qual foi o presente de grego que ganhamos no momento da grande festa? Cidadãos de Mariana, que pagam os impostos e que movimentam a economia da cidade, foram barrados na entrada do evento.
Como os anfitriões da festa não podem compartilhar o banquete com os seus convidados?Ficamos parados, em pé na ladeira, perplexos com o fato de só nos restarem as migalhas que caíam dos pratos daqueles que saboreavam a ceia, daqueles que se achavam privilegiados por terem sido selecionados para a festa.
Caro leitor, é indiscutível a indignação de muitos que ficaram fora da festa.A maioria das pessoas que foram barradas são cidadãs que constroem suas vidas,diariamente, nas ruas de Mariana, trabalhando em prol da educação, da saúde, do comércio, da arte e da cultura.
Recebi de um amigo uma credencial para que pudesse apreciar a grande ceia. Eu, polidamente, recusei. Preferi ficar com a população desconsolada por ter sido excluída do evento. Remeto-me a música do grande poeta Cazuza: “Não me convidaram para esta festa pobre que os homens armaram para me convencer(...)”.
Lamento pelo que aconteceu na cidade onde fui criada, onde eu crio os meus filhos e onde eu sou educadora. Mariana presenciou um episódio de grande desrespeito ao cidadão. Recordo-me da fábula: A Festa no Céu. A narrativa conta a história de uma festa no céu restrita aos animais que podiam voar. Os outros animais da floresta não puderam comparecer, pois as festividades aconteceram fora do alcance desses animais.
Baseando-me nesta história infantil, deixo em aberto a seguinte questão: Por que somente alguns puderam participar da festa de aniversário de Mariana?

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CIDADE MARAVILHOSA


Viajar através da leitura é uma experiência muito prazerosa. Gosto de ler, juntar as letras e saborear inúmeras histórias em diferentes cenários. Outra experiência fascinante é viajar para outros lugares, vivenciar essa mudança física e apreciar as novas sensações que ela desperta.
Revisitei, recentemente, o Rio de Janeiro. A cidade já é encantadora vista do avião no céu fluminense. Hospedar-me na cidade maravilhosa, sentar-me no banco ao lado da estátua de Carlos Drummond de Andrade, caminhar pela calçada de Copacabana, cenário de pura beleza, são momentos inesquecíveis.

Vinícius de Morais, onde mora? Sua história reside em Ipanema. Sento no calçadão e a cada morena que passa, eu assobio a música e cantarolo: “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa(...)”. Suspiro como se o poetinha estivesse presente e lembro-me que Vinícius de Morais era mestre em escrever sobre a vida, o amor e a alma feminina. 
Pego o metrô e vou em direção ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, considerado um dos mais belos prédios da cidade, um conjunto arquitetônico de grande valor cultural, artístico e histórico. Sigo pela Avenida Rio Branco, que abriga o Museu Nacional de Belas Artes, onde se encontra a maior coleção de arte brasileira do século XIX, além de apresentar obras que contemplam toda história das artes plásticas do Brasil.
Ando poucos passos e chego à Biblioteca Nacional do Brasil, considerada pela Unesco a sétima biblioteca nacional do mundo e a maior biblioteca da América Latina. A tarde surge, entro na Confeitaria Colombo, uma dose refinada de guloseimas, chás, cafés e quitutes. 
Alimentada de corpo e alma, entro no Rio Scenarium- Pavilhão da Cultura, chope gelado, diversidade cultural; pessoas de todos os cantos do mundo encontram-se neste espaço eclético do samba, do choro, do forró, da MPB, da gafieira na noite carioca. Uma mistura de antiquário e casa de shows, instalada em um sobradão no centro histórico do Rio.
Amanhece um novo dia em Copacabana, realçam-se as cores, as formas, os jeitos. A arte na areia encanta-me, paro e converso com Xavier. Ele esculpe castelos e homenageia o Rio com flores brancas da paz, enquanto conta-me as histórias trágicas do Morro da Mangueira. Sorrio, pois reconheço a fé, a religiosidade cravada em seu peito na estampa de São Jorge.
Muitas são as histórias contadas nesse cenário cultural. Drummond que o diga! Ele costumava sentar-se no banco de Copacabana para apreciar o movimento e na mesa número quatro da Biblioteca Nacional para pesquisar a vasta literatura do seu acervo. 
Rio de Janeiro a cada ponto uma arte, a cada monumento uma história. Fico estarrecida com a sua tradição e o seu glamour patrimonial e cultural. Sinto-me lisonjeada em homenagear a primeira cidade do mundo a ser condecorada pela Unesco com o título de Patrimônio Mundial como Paisagem Urbana. Cidade maravilhosa cantada por músicos e poetas. Que o Cristo Redentor continue com os braços abertos para abençoar a todos os brasileiros e o Rio de Janeiro pelo acolhimento e pelos seus encantos.

Jacqueline Antunes
Pedagoga e professora da
 Rede Pública Estadual de
Minas Gerais.



  1. Esse  texto foi publicado no Jornal 
  2. O Tempo dos Inconfidentes