quinta-feira, 21 de março de 2013

QUADRO DA SINHÁ




Neste sábado de chuva fina, saí com a minha família para almoçar em um canto sossegado. Escolhemos o Restaurante Sinhá Olímpia em Passagem de Mariana, que, desde o ano de 1981, serve uma deliciosa comida mineira. Quando chegamos, deparei-me com um quadro de uma figura folclórica da região: Sinhá Olímpia. Ela circulava pelas ruas de Ouro Preto nos anos 70 e foi uma das primeiras hippies do Brasil. Contam variadas versões da sua história de vida.
Ela nasceu em Santa Rita, distrito de Mariana, sua família era rica. Apaixonou-se por um farmacêutico pobre e seus familiares não consentiram com o namoro. Dizem que Sinhá Olímpia veio morar em Ouro Preto e acabou perdendo sua lucidez. Ela perambulava pelas ruas, contando histórias irreais sobre a sua vida. Falava como se vivesse em épocas passadas, prendia as pessoas com suas narrativas sobre grandes momentos da história do Brasil esobre personagens ilustres.
Sinhá Olímpia apresentava características de alguém que fora bem educada, falava um português claro e cantava com uma bela voz pelas ladeiras de Ouro Preto. Fiquei um tempo olhando para aquele quadro e para a imagem daquela mulher, que tive a chance de conhecer na minha infância e que agora voltava a minha memória.Vestia um vestido e um casaco vermelhos, referenciando o clima frio da cidade, um chapéu grande com flores no alto e um cajado enfeitado com papéis e flores.
Mulher de finos tratos, "louca mansa", que só demonstrava agressividade, quando as crianças perturbavam-na com insultos. Os seus olhos pintados, naquele quadro, realçavam não a loucura, mas a dor de um amor não correspondido. Um olhar perdido no tempo, uma história de desilusões. Sinhá Olímpia saiu de casa, abriu mão de tudo para viver um o amor proibido e foi abandonada por seu amado.
Personagem de visibilidade em Ouro Preto, ela foi cantada em versos e prosas, foi tema de filmes e foi homenageada pela Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro, com o samba enredo "E Deu a Louca no Barroco". Recebeu a visita de Rita Lee, Milton Nascimento, Juscelino Kubitschek, Vinícius de Moraes, dentre outros.
Com seu cigarro na boca tragava as cinzas da má sorte, tentava ignorar a dor trazida pelo amor.Sua figura marcou presença nas ruas de pés-de-moleque de Ouro Preto. Ela abriu mão da vida real para viver da loucura, para viver, através das suas histórias, momentos que nunca presenciou fisicamente, mas que faziam parte do seu faz-de-conta. Sinhá Olímpia, mulher feminina com a alma rebelde, que entre cores, papéis e flores, enlouqueceu por amor, arrumou um jeitinho peculiar para fugir da sua dura realidade.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

domingo, 3 de março de 2013

EDUCAR PARA A DEMOCRACIA





Caro leitor, pensei em vários temas para refletirmos nesta semana. Poderia falar sobre as dificuldades que o Brasil, por ser um país recém-nascido para a democracia e ainda marcado pela colonização, apresenta para alcançar uma maior autonomia social, política e econômica na esfera mundial.Cogitei, também,escrever sobre a blogueira Yoani Sánchez, conhecida como uma dissidente cubana que escolheu o Brasil como o primeiro destino da viagem que fará por 80 países.
Imaginei o luto das famílias de Santa Maria e como estaria, hoje, cada mãe, cada amigo das pessoas que morreram em uma tragédia coletiva que, com o tempo, será esquecida pela mídia, mas a dor dos envolvidos só aumentará diante da ausência. Lembrei-me da renúncia de Bento XVI, o primeiro Papa a renunciar em um período de 600 anos e o que esse fato provocará na história da igreja e nas eleições italianas. Pensei em tantos temas relevantes e acabei escolhendo relatar uma história do meu cotidiano, algo simples e que, muitas vezes, passa despercebido aos olhos.
Neste fim de semana, levei meu filho para brincar no Jardim. As crianças brincavam de bola, bicicleta, esconde-esconde e outras brincadeiras que surgiram no decorrer da tarde. Ele participava das brincadeiras, tirava as sandálias, colocava os pés no chão, tomava sorvete e lambuzava-se,correndo daqui e correndo de lá. Retratava a bela vida de moleque.
Algumas vezes, ia até ele e dava algumas orientações necessárias para a lei da boa convivência com amigos e com o patrimônio público.De repente, chegou uma criança com um carro motorizado e ficou passeando com aquele brinquedo bonito e lustroso pelo Jardim. Como o carro era a bateria, a criança ficou horas dentro de um brinquedo sem fazer nenhuma atividade: não pedalava, não jogava, não se relacionava com outras crianças e não gastava energia.
A noite chegou, eu peguei a mão suja do meu filho, que estava rodeado de crianças, despedimo-nos de todos e fomos embora. Fui para casa pensando sobre os desafios que os pais enfrentam para criar seus filhos. Não há receita,cada sujeito tem sua singularidade. Creio que o maior desafio para os pais é criar os filhos sem seguir um modelo capitalista.
Comprar um brinquedo para a criança que não irá ajudá-la a desenvolver um papel social é empobrecedor. É na brincadeira que a criança constrói suas relações com outras crianças, estabelece regras de convivência.Quem sabe se, desde a mais tenra idade, as relações forem estabelecidas entre parcerias, entre encontros e desencontros; a sociedade viverá em harmonia e a democracia atingirá seu real significado.
Será que nós queremos viver a democracia? Será que estamos preparados para isso? Não será papel da educação familiar e escolar preparar uma civilização mais livre e democrática?

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ATÉ QUANDO REINARÁ A ESCRAVATURA?



Esta semana, fui fazer feira num sacolão da cidade. Em meio a diversas frutas, legumes e verduras, senti que a natureza convidava-me para um banquete de cores e sabores. Eu estava inebriada com toda aquela diversidade e fartura, dirigi-me ao caixa e uma jovem atendeu-me com um largo sorriso e tom manso de bom dia.
Eu colocava as compras no caixa, quando, inesperadamente, um tom árido soou atrás de mim: – Menina, cadê a sua colega? A profissional acabara de ausentar-se do local e ele já cobrava de forma impertinente a sua presença. Quando ele me viu observando-o, começou a circular, imponente, pelos caixas, subjugando todos os funcionários.
Ele ria para mim, enquanto humilhava os funcionários, ditando regras e vociferando ordens; esperando que eu, como cliente, aplaudisse aquela cena mais condizente com o Brasil escravocrata.Tive vontade de arrancar daquele capataz o seu chicote.
Controlei-me efiquei olhando-o, sem dizer nada, mas baixinho, sussurrei no ouvido daquela moça, perguntando-a: – Ele age sempre com esta arrogância? – Ela olhou para mim e mostrando-se satisfeita por partilharmos da mesma opinião em relação a aquele sujeito agressivo, respondeu-me: – Hoje ele está de bom humor, está rindo, olhe só.
Olhei-o e aquele sorriso enojou-me. Engoli seco, paguei, dei um abraço na moça do caixa, saí enxugando meus olhos e indagando: – Como pessoas que estão trabalhando eficientemente são tratadas desta forma no século XXI?
 Na correria do dia-a-dia, o ocorrido não saiu da minha cabeça e confesso que, quando comecei a tecer o texto, um nó fechou a minha garganta.Parei, saí da frente do computador para respirar e ver com quais palavras concluiria minha colcha.
Desde os primórdios, os homens escravizavam outros homens e, ainda hoje, a escravidão faz parte da nossa história. Um problema social que gera a desigualdade e fortalece a impunidade. Cenas do Brasil colônia, escravizado por Portugal, passaram pela minha mente. Infelizmente, percebo que resquícios das práticas escravocratas permanecem nas atitudes de muitos sujeitos.
O Brasil foi um dos últimos a abolir a escravatura e parece que a ideia de superioridade que gera a exploração impregnou a nossa cultura.O processo de democracia é complicado em um país, onde os poderes públicos ainda idolatram várias formas de autoritarismo e visam interesses individuais. Até quando teremos que conviver com tais atrocidades?

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MARCA NA PELE




Na manhã de domingo, fomos em direção ao Planetário de Belo Horizonte, que fica em frente da Praça da Liberdade. Só faltavam três minutos para a sessão começar,quando fui alertada de que os professores pagam metade da entrada. Uma pena, eu insisto em me esquecer dos direitos dos professores (são tão poucos).
Meu filho com pressa de entrar no mundo mágico do espaço e eu, ali, remexendo na carteira para achar um comprovante da profissão que exerço. Não encontrei absolutamente nada, nem uma pista, nem um cartão do Ipsemg, nem um contra cheque, então, proclamei-me professora: -Tenho uma forma mais original de apresentar-me e comprovar a minha profissão.Toque na minha pele e se você for sensível sentirá a minha marca. Justifiquei.
Ela me olhava-me, possivelmente imaginado que estava diante de uma louca. Entrei no museu e pensei: - Para ser professor é preciso ter garra, presença forte, audácia e coragem, tudo isso é a nossa marca registrada. Milton Nascimento destacou a grande mania do professor em sua canção:"Mas é preciso ter manha. É preciso ter graça. É preciso ter sonho sempre. Quem trás na pele essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida".
O mês de janeiro está chegando ao fim e vamos caminhando para o mês de fevereiro. É chegada a hora de colocarmos as mochilas nas costas e voltarmos para a escola. É Tempo de criança na escola, romaria daqueles que trazem na bagagem o conhecimento prévio e condensado do mundo que os cerca. Chegam ávidos, sentidos despertos, emoções à flor da pele para sentir e indagar o novo mundo que circunda no espaço escolar.
Remeto-me a outra canção de Milton Nascimento para celebrar o encontro entre alunos e professores: “Mas renova-se a esperança. Nova aurora a cada dia. E há que se cuidar do broto. Para que a vida nos dê flor e fruto”. Vamos arregaçar as mangas professores! Um novo dia amanhece na história da educação brasileira. Suspirem fundo, tenham foco, fé e determinação para a nova jornada.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 30/12/2013

sábado, 22 de dezembro de 2012

QUE O ANO NOVO VENHA COM ESPERANÇA!



Fim de mais um ano. O que foi feito fica na memória ou é descartado.O que aconteceu na vida pública? Quais as melhorias alcançadas no âmbito da educação, da saúde e da ciência? O que os homens que sentam nas cadeiras dos poderes políticos mundiais realizaram? Quais foram as mediadas e atitudes que eles tomaram para um mundo de paz e igualdade? O importante entrará para a história, pois fatos foram descobertos, alguns se estabeleceram e outros se diluíram.
O planeta está enfraquecido do acreditar. Recorro a uma história dos céus para que a sua mensagem ilumine as pessoas em tempo de Natal, momento em que todos nós estamos mais susceptíveis ao sentimento de compaixão. Deixemos o lado cinzento do não acreditar de lado e busquemos o lado otimista da vida, promovendo atitudes que despontem realizações e mudanças positivas na vida de cada um de nós.
Conta a lenda que no céu existiam várias estrelas, elas desejavam descer à Terra. Deus as chamou e indagou: Por que vocês ainda querem habitar um planeta que está tão desgastado de sentimentos nobres e com os valores tão invertidos?Ele já sabia a resposta, mas ouviu-as listar as necessidades do planeta. As estrelas do amor, do perdão, da caridade, da ética, da moral e da amizade desceram formando pontes de luz para iluminar os homens na Terra. Rodearam bares, escolas, prostíbulos, casas familiares, becos, ruas, avenidas...
 Um dia resolveram voltar. Acreditando que deixaram suas marcas nas pessoas que estavam abertas às mudanças. Deus olhou para cada uma delas e sentiu falta da esperança. Perguntou, fingindo ingenuidade: Qual estrela ficou na Terra? A estrela do amor logo respondeu: Ficou a esperança. Decidimos, em assembleia, que ela é a estrela que a Terra mais precisa.
Um ano finda e outro ano desponta, que a esperança brilhe na razão e na emoção de cada povo num acordo equilibrado com a paz.Que a igualdade e a verdadeira inclusão marquem todos os territórios e que o homem possa, efetivamente, promover a igualdade e viver em união, independentemente de raça, de credo, de sexo, de cor. Feliz Ano Novo a todos nós!

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O tempo dos Inconfidentes - 19/12/2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

QUEM SE LEMBRA DO ESPÍRITO NATALINO?




Sábado, entro no transporte coletivo que circula na cidade de Mariana e percebo um movimento fora do normal. Há um tempo, relatei uma série de problemas acerca do transporte coletivo em um texto publicado neste jornal. Será que, neste intervalo de tempo, aconteceram melhorias que beneficiaram os usuários deste serviço. Eu uso o transporte coletivo diariamente e, particularmente, não notei nenhuma mudança positiva. Voltemos ao ônibus lotado de pessoas com eu, cidadãos que têm um salário baixo e uma árdua rotina diária. Ao olhar pela janela, vejo as ruas cheias e os comércios abarrotados.
Em meio a um trânsito infernal, chego ao meu destino e lembro-me que o número incomum de pessoas nas lojas está relacionado com a chegada do Natal. O espírito natalino está mais ligado ao “bom velhinho”, de barbas brancas e roupas escarlates do que ao nascimento de Jesus. Será que o Pai Noel não é o Filho, Pai ou compadre do sistema capitalista que nos faz consumir desenfreadamente?
No momento das compras o sujeito ganha um grande poder ilusório, consumir para saciar desejos infundados dá às pessoas uma sensação de satisfação momentânea. É aí que mora o perigo. Caro leitor, passado o Natal vem as promessas do Ano Novo, as festas, as férias e mais gastos. Carnaval é uma loucura total, ninguém pensa em coisas sérias, só querem saber de folia; mas, inevitavelmente, chega Março.
O Congresso abre suas portas, meio apático, para o trabalho; pois, depois um recesso tão prolongado, é preciso que o povo seja paciente até que os políticos ajeitem suas musculaturas. Finalmente “inicia-se” o ano no Brasil. A realidade vai caindo de paraquedas na cabeça do sujeito endividado, que não consegue mais dormir sossegado. O bom velhinho não retorna e, agora, o seu fiel companheiro são suas dívidas, que estão fervilhando os seus pensamentos. Ele olha para o céu e pede a Jesus que brilhe na sua vida, pois se esqueceu de voltar seus olhos para as luzes no Natal e celebrar o nascimento de Cristo.
O tempo passa, o ano transcorre, chega o final do ano e você acha que as pessoas se lembrarão do sufoco e das dívidas do ano anterior? Posso apostar que muitas esquecerão e repetirão o mesmo processo, que se torna um ciclo vicioso em suas vidas. Parece-me que faz parte da cultura do brasileiro esquecer-se dos dramas vividos, não aprendendo a lição e seguindo sempre o mesmo caminho, iludidos pela falsa satisfação e por acharem que mais vale uma dívida na mão do que o objeto cobiçado voando.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto  publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 12/12/2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A VIDA É FEITA DE ATITUDES


Sou uma usuária do facebook e nessa rede social posto mensagens diariamente para amigos que partilham comigo esse instrumento de comunicação. Um espaço onde as pessoas publicam, curtem e compartilham ideias; entretêm-se, ouvem músicas, brincam e discutem temas diversos.
Eu criei um conceito chamado Blá,Blá,Blá,Blú,Blú,Blú, que se refere a tudo que o sujeito fala e sugere as outras pessoas e na realidade não pratica. Existe uma divergência entre a imagem que é criada no mundo virtual e a realidade; entre o fazer e o dizer existe uma diferença gigantesca. As falas e os atos das pessoas devem estar na mesma direção, pois se forem contraditórios, você estará criando uma mentira, estará mascarando a realidade.
O homem, muitas vezes, usa máscaras como defesa, é uma estratégia que talvez facilite o nosso dia a dia.Quem nunca usou máscaras? Não estou falando das máscaras da Grécia, que os atores utilizavam para interpretar um personagem, tais enfeites eram denominados personas. Em Veneza, a nobreza fazia uso das máscaras para se disfarçar e misturarem-se ao povo durante as festividades.
Não acredito em verdades absolutas e nem em pessoas por demais verdadeiras, pois o que é verdade hoje, pode não ser verdade amanhã ou o que é verdade para você, pode não ser para mim. Cada sujeito tem sua forma singular de ver o mundo.
Chegamos ao último mês do ano, ainda é tempo de pararmos para fazer um balanço, nos voltarmos para dentro de nós mesmos e avaliarmos nossas vidas pessoal, profissional e revermos se realmente cumprimos o nosso papel de cidadãos.O que você fez em 2012? Realizou muitos sonhos, ou ficou esperando que as coisas caíssem do céu?Pensou na coletividade ou enterrou o umbigo na sua individualidade? Procurou fazer as coisas da maneira que prega, seus atos foram condizentes com o que acredita ou apenas ficou no BláBláBláBláBlúBlú?
A vida é feita de fazer, prover, curtir, brincar, sonhar e é nesse movimento que as pessoas criam o cenário da sua história. Não vivemos sozinhos, estamos interligados por redes de convivências, sejam elas no cotidiano da vida real, sejam elas nas redes sociais. Devemos buscar uma relação de respeito em cada atitude, precisamos deixar o Blá,Blá,Blá,Blú,Blú, Blú e vivermos de modo mais coerente e mais equilibrado.

Jacqueline Antunes,
Pedagoga e professora.