quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VOCÊ TEM MEDO DE QUE?


Em meio a uma brincadeira na praça, ouço alguém dizer a uma criança: – Você não pode correr sozinha por aí, porque o homem do saco vai lhe pegar.
O medo nos acompanha desde a mais tenra idade, a literatura infantil nos mostra, através dos seus enredos, que podemos superá-lo com coragem e determinação. As histórias colaboram para compreendermos que a vida é uma luta contínua do bem e do mal e que, como na maioria desses clássicos infantis, é possível superar todos os inimigos e percalços que enfrentamos na caminhada diária.
Contar e ouvir histórias infantis são um ato prazeroso, pois alimenta a vida interior das pessoas, fazendo com que a fantasia promova a esperança, minimizando questões que afligem o homem no mais íntimo do seu ser. Sentir medo tem seu lado saudável, a espécie humana não teria sobrevivido aos predadores e aos perigos sem ele. O medo é um mecanismo de alerta que nos fortalece, estabelecendo limites e desenvolvendo mecanismos de defesa.
Será que o medo é imposto? Quando a mãe diz ao filho que se ele “pecar” o homem do saco vem para levá-lo, pode ser considerado um medo “saudável”? Será que o homem do saco não representaria Deus e o saco representaria o inferno? Na história das civilizações existem marcas desse medo, reporto-me aos tempos da Idade Média, quando os homens da igreja exaltavam os princípios cristãos e a necessidade de estarem preparadas para o Juízo Final. O importante para o homem medieval era morrer sem pecado, porque só assim ele iria para o paraíso sem medo, com a alma pura. Os temores pelos fenômenos desconhecidos e incontroláveis eram amenizados pela fé.
Como o homem se apresenta no mundo hoje em relação aos seus medos? Será que o medo não está tomando proporções inadequadas? Somos dotados de humanidade, não somos seres perfeitos, pois cometemos erros e acertos, temos dúvidas e, muitas vezes, somos impedidos de prosseguir pelos nossos temores. Que o homem do saco, que pega a criança para fazer mingau, não ganhe força em proporções descabidas. Que tenhamos coragem e perseverança para enfrentarmos as dificuldades e lutarmos pelos nossos sonhos, para vivermos os dois lados da moeda, a dualidade da vida: o bem e o mal. Eu agradeço aos céus o humano que habita em mim, pois a luz só brilha diante da escuridão.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes -  20/22/2012 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

VIDA E MORTE


Sábado pela manhã, feriado de Finados, uma chuvinha fina cai na vidraça da minha casa, nessa calmaria, coloco-me a pensar em temas como Vida e Morte. Sabemos que o processo natural da vida é este: nascer, viver e morrer. Pronto, simples e real. Indago como todo homem que saiu da caverna (Remeto-me aqui ao mito da caverna de Platão, que é a exemplificação de como, através da luz da verdade, podemos nos libertar e sair da escuridão.) vive (Será mesmo que saímos da caverna?) questionando e criticando.
Morte, palavra densa. O que é morrer? Morrer é o ponto final, onde tudo acaba? Ou é quando deixo a roupagem carnal e lanço-me à viagem da renovação do espírito no mundo espiritual? Será a morte o misterioso caminho que me leva a desnudar-me ao encontro de mim mesma? Ou será sair das amarras da ignorância e sofrer o absoluto absurdo do conhecimento?
Reporto-me à parábola da Águia que viveu até os 70 anos, mas aos 40, quando se sentiu cansada, com as penas velhas, as unhas longas e fracas para agarrar as suas presas, ela foi para um ninho perto de uma montanha e lá arrancou seu o bico, esperou que crescesse e com ele arrancou as suas unhas, aguardou mais um pouco até que elas crescessem e com suas novas garras retirou suas asas e quando elas renovaram-se saiu para viver mais 30 anos. Na verdade ela viveu um tormentoso e necessário processo de renovação que durou 150 dias. Retirou o que era velho e ultrapassado, renovou-se e saiu pelo mundo forte, leve, graciosa e tolerante; pronta para entender que a vida é feita de alegrias, mas, também, de percalços.
Vida é o contrário da morte? A vida é oportunidade, é como uma folha de papel em branco, onde a cada dia traçamos nossa história. Viver é estar presente, pulsar, respirar; é pele latente nos caminhos da existência; é ser feliz, trabalhar em busca do alimento de cada dia, tropeçar, cair e levantar.
Existem, por aí, sujeitos que não conseguem ver a vida como uma "metamorfose ambulante" e que morrem sem desfrutar dos seus prazeres. A vida não é para ser perfeita e, sim, para ser vivida. Viver a mesmice, pensar que a vida é uma mala pronta que não pode ser desarrumada, não é vida e, sim, morte.
Levante, dance, trabalhe, brinque, ouse, leia, silencie, cale, durma, coma, beba e, quando a morte “bater na sua porta”, que sua vida tenha sido repleta de boas lembranças e que você tenha marcado a história. Bom Feriado de Finados a todos! Vou molhar-me na chuvinha fresca e brincar como criança, pois não sou de ferro para curtir o tédio melancólico de olhar a janela e ver a vida passar sem fazer algo diferente do que faço todo dia.
Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 07/11/2012

UM PAPO COM O PROFESSOR


Na semana que passou, comemoramos o dia do professor. Falar de professor no Brasil, muitas vezes, angustia-me, pois eu sei que os governantes e a sociedade em geral não valorizam os profissionais da educação e, principalmente, da educação básica.
Fazendo uma análise da greve que aconteceu ano passado, revivo em minha memória alguns momentos desse doloroso movimento, que durou 112 dias. Na verdade, durou muito mais, pois, depois da greve, foram tirados os direitos estabelecidos e conquistados por nós, profissionais da rede pública estadual de ensino, em uma longa história de conquistas de direitos.
Nós, professores do ensino fundamental, atuamos na base da formação, mediamos o conhecimento em sujeitos que estão constituindo o seu carácter. É na infância que se constrói o despertar para educação de um cidadão que caminhará pelas ruas pensando, criticando, interagindo e contribuindo com a sociedade.
O ensino básico é menosprezado. É preciso valorizar a educação em sua totalidade, desde o ponto em que ela se inicia até chegar às universidades. É função do poder público e do educador desenvolver um ensino de qualidade. Deixemos de lado os paradigmas equivocados. Nós, professores da educação básica, não somos simples cuidadores e muito menos impositores de ideias e detentores do poder.Somos mediadores de conhecimento, devemos estimular o aluno a pensar, a questionar, a elaborar hipóteses e a acreditar em um mundo melhor.
Na última greve, o que me tocou foi, mais uma vez, grupos de “gatos pingados” lutando pelos direitos da educação nos municípios, entregando suas vidas na luta pela educação. Ao ir às assembleias em Belo Horizonte, pude observar que eram poucos os profissionais de educação dos ensinos iniciais que se dedicaram à causa e debruçaram-se sobre seus ideais. Que esperança eu posso passar ao meu aluno se eu não acredito na profissão que escolhi?
Junto-me àqueles que acreditam na educação, que vão à luta, que constantemente aperfeiçoam-se, capacitam-se, apropriam-se de cultura através de bons filmes, bons livros, boa música e estão antenados aos conhecimentos que perpassam a sociedade,só assim, teremos condições de sermos profissionais com visão de mundo.
Sei que esse texto está parecendo um puxão na orelha do profissional da educação no mês em que é comemorado o seu dia. Só estou tentando quebrar paradigmas negativos que não impulsionam o professor à sua grande causa: ser educador.
Sejamos compromissados com nossa vida profissional, busquemos nossos direitos e façamos valer o nosso dever de educadores. Quem sabe assim, juntos em uma classe unida e fortificada, cumpriremos o nosso papel perante a sociedade na formação de cidadãos conscientes e atuantes. É nos valorizando que seremos valorizados.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto publicado no jornal O Tempo dos Inconfidentes - 22/10/2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

UM CLICK COM ARTE


                                                                                                 O olhar do fotógrafo
mira a alma.
Ele capta o instante
transformando-o em eternidade!

Revelo a você, caro leitor, um grande sonho: ser fotógrafa profissional, que mira e resgata a essência das coisas em um espetacular golpe de vista. O fotógrafo capta a cena a olho nu, despido de preconceitos, alcança o mistério da alma e eterniza instantes. Bacana vê-los sair por aí roubando cenas cotidianas e transformando-as em arte.
    Fotografia é leitura exemplar, olho no olho, boca na boca, pele na pele... A fotografia é como o sol que entra pelas janelas revelando a nossa essência. Ela desvela a beleza da noiva, a boca vermelha da prostituta, o vazio do bêbado, a miséria do amante abandonado, a grandeza da mulher descalça no chão seco do norte, o embrutecimento covarde do político que bate as mãos nas costas do eleitor ingênuo e rouba-lhe o voto, a ironia no azedume do homem que matou a mulher para ser livre na prisão.
    O flash invade a cena de amor sem pedir licença e com classe impõe sua presença. Ser fotógrafo é conhecer a sutileza e no silêncio desvendar segredos. A fotografia grita a injustiça, revela o mistério, mostra um rebuliço visual, onde nenhuma palavra é necessária. Ela acorda os sonhos adormecidos em nossa memória, através do olhar daquele que eterniza a vida ao ignorar o tempo presente. Um bom exemplo é o da viúva que doa, a cada manhã, um beijo ao retrato do marido que um dia foi presença.
Ana Elisa Costa Novaes, residente em Passagem de Mariana, pratica a arte refinada de fotografar. Ela mira o alvo com avidez e penetra o íntimo do objeto que revela. Resgata e transmite de modo peculiar culturas, ambientes, olhares, casarios, procissões; uma infinidade de cores e de formas. Encanto-me com o trabalho singular da fotógrafa que une os elementos em um acorde em plena sintonia com a beleza, o tempo, a memória e a história.  Ana cita Cartier Bresson – “fotografar, colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração” – para falar sobre seu trabalho: a arte de fotografar.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.
Texto  publicado no Jornal O tempo dos Inconfidentes - 17/10/2012

FLORESÇA BRASIL


Por onde eu passo, vejo os ipês, que apresentam cores exuberantes e enfeitam o ambiente. A primavera anuncia a sua chegada, renova os ares e os cenários da natureza, mas, muitas vezes, o sujeito passa com pressa, olha e não vê a chegada da estação primaveril. Por falar em pressa, no dia 7 de outubro, acontecem as eleições para prefeitos e vereadores de todo o Brasil.
Amanheci e descortinei a janela da minha sala, o céu azul dava um tom de esperança ao solo brasileiro. Não tenho nas veias o sangue da cigana latina, que prevê o futuro, não sei quem vai ganhar as eleições no nosso município e nem no Brasil. A minha única certeza é que, do Oiapoque ao Chuí, do norte ao sul e em cada ponto do país, teremos a oportunidade de votar, que é um direito constitucional e um dever cívico de todo cidadão.
Caro leitor, é tempo de renovação, novos prefeitos e vereadores subirãona rampa da vida pública;eles serão peças fundamentais que deverão ter grande responsabilidade na construção e na melhoria da vidado nosso município e do nosso país. Estamos cansados de tempos difíceis no histórico político brasileiro; o sentimento de desamparo e de desesperança rondam muitos de nós.
Vamos aproveitar os ares renovados pela estação primaveril. Acredito que o pessimismo não nos levou a lugar nenhum e só nos fez retroceder.Devemos tirar nossa roupagem impregnada pelo mofo e pela poeira dos velhos tempos, para que, com uma nova energia, finquemos o pé no acreditar. Ousadia é isto: ter fé no novo. Precisamos mudar a cor e o tom das nossas vidas para contribuir com uma sociedade mais otimista e ativa.
 Não somos bobos da corte, não devemos aceitar e acreditar em tudo o que fazem e falam os governantes, pelo contrário, devemos questionar, criticar e cobrar melhorias para o nosso município, só assim, contribuiremos para uma sociedade mais justa e democrática. Deixe a primavera modificar o espaço público, deixe o sol entrar, desvencilhando as trevas e possibilitando um ambiente de transformações e de evoluções para o cidadão brasileiro.

Jacqueline Antunes,
pedagoga e professora.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

FACE DE JESUS


No dia 18 de setembro, num congresso em Roma, foi apresentada uma inscrição antiga feita em papiro. O documento sinaliza que Jesus teria sido casado. Ora, a vida de Jesus foi perpassada por mitos e, às vezes, montar o quebra cabeça de sua existência é muito complicado.Se Jesus foi casado ou não, não quero entrar nesse pormenor. Seria um desatino escrever sobre uma temática tão polêmica. Acredito que esse é um assunto que deve ser abordado por historiadores.
O que quero ressaltar, caro leitor, são os exemplos e os ensinamentos de Jesus. Ao refletir sobre os passos desse homem de espírito superior, lembrei-me de uma palavra tão escassa atualmente – ALTERIDADE, originária da palavra latina alter, que significa o outro.
Jesus veio ao mundo há 2.000 anos, levantando a bandeira da ética, da alteridade e da paz. Seus ensinamentos foram muitos, porém, atualmente, são pouco aplicados. Hoje, vivemos em um mundo onde a cultura do capitalismo foi fixada em nossas cabeças. Estamos na roda viva das intolerâncias, das guerras, das discriminações, das disparidades, que gera graves problemas sociais.
O mundo contemporâneo ainda mostra marcas do domínio de homens sobre homens, da guerra de todos contra todos; somos seres suspeitos em muitos aspectos. A sociedade passou por inúmeras transformações e evoluções, mas a intolerância e o preconceito não se extinguiram. Como mudar este cenário em que o outro está diante de mim e não quero vê-lo, nem aceitá-lo?
Recorro à ética de alteridade do filosofo judaico, Emmanuel Lévinas – "É na face do OUTRO que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do OUTRO o sujeito se descobre responsável(...)" – para fazer um apelo pela justiça, pelo respeito e pela responsabilidade. Devemos continuar a trilhar nossos caminhos, promovendo o respeito perante as diferenças, procurando encontrar no outro a face de Jesus. Quem sabe assim, seremos acolhidos pelo mundo independente da nossa raça, credo, classe social e sexo.

Jacqueline Antunes -
pedagoga e professora.
Texto publicado no jornal O Tempo dos inconfidentes  - 02/10/2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO AINDA QUE TARDIA


Eu disse a uma amiga:
- O jardim de Mariana está florido, o coreto restaurado, a Praça Gomes Freire está revigorada, mas as bicicletas guiadas por adolescentes, a toda velocidade, tornam o ambiente desagradável.
No momento em que eu falava, um deles passava por nós. Ele mais do que depressa parou a bicicleta e me perguntou:
- Você é a dona do Jardim?
Respondi:
- Não, sou uma moradora da cidade, gosto do Jardim e quero passear aqui sem ser atropelada pelas bicicletas.
- Quer chamar a polícia? Pode chamar! Sou filho de um policial militar – disse-me ele.
Pensei em dar-lhe a seguinte resposta:
-Seu pai é policial, então chame-o para eu pedir a ele que lhe dê educação.
Preferi não me manifestar. Ele continuou encarando-me como quem deseja o temor das pessoas. Naquele momento, senti que me queria como sua refém. Ele gritava desaforos e insultos ao fitar-me com um olhar ameaçador.
Escrevendo esse texto, reflito sobre a falta de educação. As pessoas não compreendem que liberdade é o direito de procedermos como acharmos melhor, contanto que esse direito não vá contra o direito dos outros. Hoje é sete de setembro e comemora-se a Independência do Brasil. Será que atitudes, como a desse adolescente, acontecem por vivermos uma falsa independência? Será que os jovens estão desnorteados por estarem no meio da loucura causada por mentiras, corrupções, deturpação dos valores e histórias mal resolvidas?
Não vou entrar no mérito histórico, não sou historiadora. Estou fazendo uma crônica para expor o meu ponto de vista diante de situações cotidianas. Nesses dias, um mal-estar pairava sobre as ladeiras da cidade. Será que a população, depois de séculos após a Inconfidência Mineira, que aconteceu em Ouro Preto, ainda clama pela “Libertas Que Sera Tamen” (liberdade ainda que tardia)?
Liberdade, palavra tão cobiçada nessa região na época dos inconfidentes. A Inconfidência Mineira terminou em mortes, traições e amores. A história apresenta várias versões, mas o que interessa é que esse movimento fez parte do processo de Independência do Brasil.
Somos um país tão empobrecido no que tange às questões como a independência e a política. O governo não investe em educação e é ela que promove cidadãos críticos, pensantes, conscientes de seus direitos e deveres e que saibam conduzir a vida através de um movimento da equidade. A educação deve ser prioridade de quem está no poder público e, também, de todo cidadão brasileiro.Um pouco de educação não faz mal a ninguém!
Resta-nos a esperança de que nem todos os pais deixem seus filhos saírem pelas ruas fazendo uso da violência que, infelizmente, passou a fazer parte do nosso cotidiano. Lutemos pela educação e pela liberdade plena para gregos e troianos. Assim seja!

Jacqueline Antunes,
Pedagoga e professora.

Texto publicado no Jornal O Tempo dos Inconfidentes - 13/09/2012